Guia On Line de Clínica Buiátrica
Maurício Garcia, Alice M.M.P. Della Libera, Ivan R. Barros Filho

Apresentação

A buiatria é uma especialidade da medicina veterinária que se dedica à saúde e produção de ruminantes domésticos. O termo deriva do grego, aonde "bui" significa bovinos e "iatrus" significa tratamento.

Atualmente em âmbito internacional existem a Associação Mundial de Buiatria e a Associação Latinoamericana de Buiatria. No Brasil existe a Associação Brasileira de Buiatria.

A clínica buiátrica é, desta forma, um segmento da buiatria, e dedica-se ao diagnóstico e tratamento das enfermidades dos ruminantes domésticos. O esquema abaixo procura representar a posição da clínica buiátrica no contexto da medicina veterinária:

Saúde animal Clínica médica e cirúrgica Clínica buiátrica
Clínica de eqüinos
Clínica de cães e gatos
Clínica de animais silvestres
Medicina Veterinária Preventiva Defesa Sanitária Animal

Produção animal
(zootecnia)
Manejo e criação
Nutrição e alimentação
Reprodução
Genética e melhoramento
Tecnologia de produtos de origem animal

Saúde pública Inspeção de produtos de origem animal
Zoonoses

Os ruminantes

Os ruminantes são mamíferos, isto é, pertencem à classe mammalia. Essa classe compreende várias ordens. Por exemplo, os cães e gatos pertencem à ordem dos carnívoros. Já os animais que possuem cascos estão divididos em duas ordens: perissodáctilos e artiodáctilos. Os perissodáctilos são animais que possuem cascos com número ímpar de dedos, tal como o cavalo, jumento, zebra, rinoceronte e anta.

Os artiodáctilos são mamíferos que possuem cascos com número par de dedos, tal como o porco, o hipopótamo e os ruminantes. Assim, os ruminantes são uma sub-ordem que possui as seguintes famílias:

  • Bovídeos: antílopes, búfalos, bovinos, ovinos e caprinos (cornos perenes)
  • Cervídeos: cervos e veados (cornos não perenes)
  • Girafídeos: girafa
  • Camelídeos: lhama, alpaca, vicunha, guanaco, camelo e dromedário

    Os grandes animais

    Em diversos cursos de medicina veterinária, é comum estudar a clínica buiátrica em conjunto com a clínica de eqüinos, sob a designação "clínica de grandes animais". Na verdade, cabras e ovelhas não são animais grandes, e certas raças de cães de são muito maiores, mas a essa designação tornou-se consagrada e torna-se muito prática no dia-a-dia do curso.

    É importante, assim, salientar as peculiaridades da nomenclatura das espécies animais abordadas pela clínica de grandes animais:

    Espécie BOVINA BUBALINA CAPRINA OVINA EQÜINA ASININA MUAR
    Nome científico Bos indicus
    e Bos taurus
    Bubalus bubalis Capra
    hircus
    Ovis
    aries
    Equus
    caballus
    Equus
    asinus
    E. caballus
    x E. asinus
    Adulto macho Boi, touro Búfalo, touro Bode Carneiro, capão Cavalo, garanhão Jumento, jegue, asno Burro
    Adulto fêmea Vaca Búfala, Vaca Cabra Ovelha Égua Jumenta Mula
    Jovem macho Novilho, garrote Novilho, garrote   Borrego      
    Jovem fêmea Novilha Novilha   Borrega Potranca    
    Lactante macho Bezerro, terneiro Bezerro Cabrito Cordeiro Potro Potro Potro
    Lactante fêmea Bezerra, terneira Bezerra Cabrita Cordeira Potra Potra Potra

    O objetivo do clínico: curar

    A cura de uma animal se obtém através de um tratamento que pode ser médico e/ou cirúrgico. A escolha do melhor tratamento depende de um preciso diagnóstico, o qual só pode ser obtido através de um minucioso exame clínico (identificação + anamnese + exame físico + exames complementares).

    Esse procedimento remonta aos gregos antigos, quando o famoso médico Hipócrates (460 a 377 A.C.) lançou os fundamentos da medicina. Até então, o processo de cura era feito por sacerdotes, em templos, estando muitas vezes o doente distante dos sacerdotes. Quando Hipócrates iniciou o processo da observação clínica, passou ser necessário permanecer ao lado do paciente, ao lado do leito. A palavra "leito" em grego é "kline". Assim surgiu o termo "klinike" (clínico), para se referir aos médicos que ficavam ao lado do paciente, junto ao leito, e não mais nos templos. Hipócrates também criou um rigoroso código moral e até hoje, os formandos de medicina e medicina veterinária repetem o famoso "juramento de Hipócrates".

    Com o declínio do mundo clássico, em meados do primeiro milênio, o eixo da atividade médica deslocou-se para o oriente, particularmente para o Irã, aonde destacou-se o famoso médico Avicena (980 a 1037). Seu livro "Canon de Medicina" foi utilizado pelas escolas médicas européias até o século XVIII.

    Foi o médico francês Corvisart (1755-1821) que criou as bases da científicas da clínica moderna, utilizando técnicas como a percussão nas afecções torácicas (a percussão foi inventada por Auenbrugger, em 1760, ao observar seu pai percutir tonéis de vinho para verificar se estavam cheios).

    Coube a Laennec (1781-1826), discípulo de Corvisart, a criação do método anátomo-clínico, correlacionando lesões com sintomas. Esse método é empregado até hoje. Laennec inventou também o estetoscópio.

    Foi aproximadamente neste período que a medicina veterinária iniciou formalmente sua história, através da criação do primeiro curso de medicina veterinária, pelo advogado Claude Bourgelat, em 1762, na cidade de Lyon, França.

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