Guia On Line de Clínica Buiátrica
Maurício Garcia, Alice M.M.P. Della Libera, Ivan R. Barros Filho

Antibioticoterapia e hidratação em ruminantes

Introdução

A cena de um profissional segurando um frasco de soro de 500 mL, aplicando-o via intra-venosa em uma vaca, infelizmente, ainda é prática comum em nosso meio. Ora, sabemos que uma vaca, que pesa ao redor de 400 kg, deve receber no mínimo 10 litros de soro para ser hidratada, o que corresponde a 20 frascos de soro. A prescrição inadequada de medicações em ruminantes é muito mais comum do que se pensa e o fato pode assumir dimensões até dramáticas, como é o caso do uso indevido de antibióticos. O objetivo deste texto é apresentar ao aluno alguns fundamentos da antibioticoterapia e hidratação em ruminantes, sem todavia dispensar a consulta aos textos técnicos mais aprofundados sobre o tema.

Antibioticoterapia

Aspectos históricos

1929 - Fleming (Inglaterra): descoberta da penicilina em culturas contaminadas pelo fungo Penicillum notatum. Prêmio Nobel em 1945.

1935 - Domagk (Alemanha): descoberta da sulfa (Prontosil - Bayer). Prêmio Nobel em 1939.

1941 - Chain & Florey (Inglaterra): 1o. uso da penicilina em humanos: policial com osteomielite. Prêmio Nobel para ambos em 1945 (junto com Fleming). Em 1943, Florey foi para os EUA aonde passou a produzir penicilina em grandes quantidades para uso militar.

1944 - Waksmann (EUA): descoberta da estreptomicina a partir de cultura do fungo Streptomyces . Prêmio Nobel em 1952. A produção anual de estreptomicina nos EUA passou de 250 gramas em 1946 para 80 toneladas em 1951.

Década de 70 - principais antimicrobianos disponíveis:

  • ß lactâmicos (penicilina G)
  • sulfa
  • aminoglicosídeos (estreptomicina, neomicina, gentamicina, canamicina, etc.)
  • tetraciclinas
  • fenicóis (cloranfenicol)
  • macrolídeos (eritromicina, lincomicina, tilosina, etc.)

    Atualmente - resistência microbiana induziu produção de novos antimicrobianos:

  • sulfa potencializada (+ trimetropim)
  • novos ß lactâmicos: cefalosporinas e penicilinas sintéticas (ampicilina, amoxicilina)
  • novos fenicóis: florfenicol
  • quinolonas (enrofloxacina, danofloxacina, norfloxacina e ácido oxonílico)

    Regras básicas para o uso de antimicrobianos

    Escolhendo o antimicrobiano

  • Determine a susceptibilidade do agente através de antibiograma.
  • Quando não for possível realizar o antibiograma considere o tipo de infecção. Se for uma infecção específica, usar antibióticos que sabidamente têm efeito, por exemplo, tilosina para micoplasmas, estreptomicina para leptospira, etc. Se for uma infecção inespecífica, usar antibióticos de amplo espectro, dando preferência a substâncias ativas mais antigas, para poder usar as mais recentes como segunda opção, quando for o caso.

    Cuidado com associações

  • Não associar bactericidas com bacteriostáticos (pode haver antagonismo)
  • Cuidado ao associar com produtos que mascaram seu efeito, como antiinflamatórios e anticolinérgicos.
  • Não associar de forma a ocorrer incompatibilidade de dose e freqüência.

    Espectro de ação dos principais antimicrobianos

     

    Classe

     

    Tipo

    Gram +

    Staphylococcus

    Streptococcus

    Arcanobacterium

    Corynebacterium

    Gram -

    E. coli

    Proteus

    Salmonella

    Klebsiella

    Quinolonas

    bactericida

    +

    +

    Cefalosporinas

    bactericida

    +

    +

    Penicilinas sintéticas

    bactericida

    +

    +

    Sulfa + Trimetropim

    bacteriostático

    +

    +

    Penicilina G

    bactericida

    + *

    -

    Fenicóis

    bacteriostático

    +

    +/-

    Aminoglicosídeos

    bactericida

    -

    +

    Macrolídeos

    bacteriostático

    +

    -

    Tetraciclinas

    bacteriostático

    +

    +/-

    * alguns Gram + (p.ex. Staphylococcus aureus) produzem penicilinases.

    Tabela de doses dos principais antimicrobianos de uso em grandes animais

    Princípio ativo

    Classe

    Tipo

    Dose e freqüência

    Ácido oxonílico

    quinolona

    Bactericida

    15 mg/kg  12h

    Amoxicilina

    ß lactâmico

    Bactericida

    20 mg/kg  12h

    Amoxicilina + ác. clav.

    ß lactâmico

    Bactericida

    10 mg/kg  12h

    Ampicilina

    ß lactâmico

    Bactericida

    5 mg/kg  6h

    Ampicilina benzatina

    ß lactâmico

    bactericida

    10 mg/kg  12h

    Canamicina

    aminoglicosídeo

    bactericida

    8 mg/kg  12h

    Ceftiofur

    ß lactâmico

    bactericida

    1,5 mg/kg 24h

    Cloranfenicol

    fenicol

    bacteriostático

    25 mg/kg  12h

    Clortetraciclina

    tetraciclina

    bacteriostático

    10 mg/kg  24h

    Danofloxacina

    quinolona

    bactericida

    1,25 mg/kg  24h

    Diidroestreptomicina

    aminoglicosídeo

    bactericida

    15 mg/kg  8h

    Enrofloxacina

    quinolona

    bactericida

    5 mg/kg  24h

    Espectinomicina

    aminoglicosídeo

    bactericida

    10 mg/kg  8h

    Estreptomicina

    aminoglicosídeo

    bactericida

    12 mg/kg  12h

    Florfenicol L.A.

    fenicol

    bacteriostático

    20 mg/kg  24h

    Gentamicina

    aminoglicosídeo

    bactericida

    3 mg/kg  8h

    Lincomicina

    macrolídeo

    bacteriostático

    15 mg/kg  24h

    Neomicina

    aminoglicosídeo

    bactericida

    12 mg/kg  12h

    Norfloxacina

    quinolona

    bactericida

    5 mg/kg  24h

    Oxitetraciclina

    tetraciclina

    bacteriostático

    10 mg/kg  24h

    Oxitetraciclina L.A.

    tetraciclina

    bacteriostático

    20 mg/kg  72h

    Penicilina G benzatina

    ß lactâmico

    bactericida

    40.000 UI/kg  72h

    Penicilina G potássica

    ß lactâmico

    bactericida

    15.000 UI/kg  6h

    Penicilina G procaína

    ß lactâmico

    bactericida

    25.000 UI/kg  12h

    Penicilina G sódica

    ß lactâmico

    bactericida

    15.000 UI/kg  6h

    Sulfa + Trimetropim

    sulfa

    bacteriostático

    30 mg/kg  24h

    Tetraciclina

    tetraciclina

    bacteriostático

    15 mg/kg  12h

    Tilosina

    macrolídeo

    bacteriostático

    10 mg/kg  24h

    Formulações comerciais

  • Produtos injetáveis
  • Produtos orais
  • Produtos para mamite
  • Intrauterinos
  • Pomadas para pele
  • Colírios
  • Otológicos


    Hidratação

    Via de administração

  • 1a. aplicação: reposição IV
  • Demais aplicações: manutenção IV ou VO (VO assim que possível, dependendo da gravidade e do estado do animal).
  • Usar catéter

    Volume

    Depende do peso e do grau de desidratação.

    Grau I: ligeira enoftalmia, apatia discreta, pele permanece pregueada até 2 segundos.

    Dose = 30 ml/kg

    Grau II: enoftalmia e apatia leves, pele permanece até 4 segundos.

    Dose = 50 ml/kg

    Grau III: enoftalmia e apatia moderadas, pele permanece até 10 segundos.

    Dose = 80 ml/kg

    Grau IV: enoftalmia e apatia severas, extremidades frias, pele permanece até 20 segundos.

    Dose = 120 ml/kg

    Composição

    Considerar: reposição de eletrólitos (pp. sódio), acidose e hipoglicemia.

    Eletrólitos: preocupar-se com a concentração de sódio (ideal de 135 a 155 mmol/L). Demais eletrólitos não são indispensáveis. Em humanos é comum a indicação de hidratação apenas com água e sal. Nas desidratações, principalmente aquelas causadas pela diarréia, há muita perda de sódio provocando quadro de hiponatremia. Três moléculas usualmente empregadas em produtos para fluidoterapia contém sódio: cloreto de sódio, bicarbonato de sódio e lactato de sódio. Para calcular, em mmol/L, a concentração de sódio da solução usar a fórmula:

    Na+ = NaCl/58 + NaHCO3/84 + NaH5C3O3/112

    aonde:

  • Na+ = concentração de sódio em mmol/L (ideal entre 135 e 155)
  • NaCl = concentração de cloreto de sódio em mg/L
  • NaHCO3 = concentração de bicarbonato de sódio em mg/L
  • NaH5C3O3 = concentração de lactato de sódio em mg/L

    Exemplos:

    Solução salina isotônica 0,9%

  • NaCl = 9.000 mg/L
  • NaHCO3 = zero
  • NaH5C3O3 = zero
  • Na+ = 9.000/58 + 0/84 + 0/112
  • Na+ = 155 + 0 + 0 = 155 mmol/L

    Solução isotônica de bicarbonato de sódio 1,3%

  • NaCl = zero
  • NaHCO3 = 13.000 mg/L
  • NaH5C3O3 = zero
  • Na+ = 0/58 + 13.000/84 + 0/112
  • Na+ = 0 + 156 + 0 = 156 mmol/L

    Ringer com lactato de sódio

  • NaCl = 6.000 mg/L
  • NaHCO3 = zero
  • NaH5C3O3 = 3.000 mg/L
  • Na+ = 6.000/58 + 0/84 + 3.000/112
  • Na+ = 103 + 0 + 27 = 130 mmol/L

    Concentração de sódio (em mmol/L) em soluções e produtos comerciais:

    Bicarbonato de sódio 1,3%156
    Salina 0,9%155
    Ringer 147
    Ringer c/ Lactato130
    Stimovit®121
    Aminovit®121
    Biovit®121
    Biorresistin®103
    Androsoro®101
    Hertavita®95
    Bioxan®69
    Glicose 5%0
    Glicose 50%0

    Acidose: bicarbonato é melhor que lactato, mas requer monitorização laboratorial. O emprego de soluções de bicarbonato sem monitorização laboratorial pode provocar alcalose. Todavia, tratamentos empíricos com bicarbonato sem monitorização têm sido empregados na proporção de 1 litro de solução isotônica de bicarbonato de sódio (1,3%) para cada 3 litros de solução salina isotônica (0,9%).

    Bezerras com diarréia usualmente necessitam de 200 a 450 mmols de bicarbonato que correspondem de 1 a 3 litros de solução isotônica de bicarbonato de sódio (1,3%).

    A acidose é causada pela perda de bicarbonato nas diarréias e pelo incremento no catabolismo carboidratos, lipídeos e proteínas, visando produzir água. O pH do sangue normal é de 7.35 a 7.45 mas, em tese, um animal pode suportar pHs de 7.0 a 7.8. A acidose provoca acentuada queda no estado geral, manifestando-se por prostração, apatia e decúbito. A severidade da acidose não está necessariamente associada à severidade da desidratação, isto é, é possível e comum encontrar animais desidratados mas sem acidose. Desta forma, animais desidratados que estiverem de pé, alertas e com bom apetite não necessitam de tratamento com bicarbonato ou outro alcalinizante.

    Concentração de alcalinizantes (em mmol/L) em soluções e produtos comerciais:

    Bicarbonato de sódio 1,3%155
    Androsoro®28
    Ringer c/ Lactato27
    Salina 0,9%0
    Ringer 0
    Stimovit®0
    Aminovit®0
    Biovit®0
    Biorresistin®0
    Hertavita®0
    Bioxan®0
    Glicose 5%0
    Glicose 50%0

    Glicose: o tratamento com glicose é indicado nos casos em que o suporte energético não estiver garantido, como nos casos em que o animal não estiver se alimentando adequadamente. Tratamento com glicose deve ser feito empregando-se soluções isotônicas de glicose (5%), segundo a seguinte fórmula:

    V = Peso^0.73 x 0,44

    Exemplos bezerra 40 kg = 6,5 litros

    Note que os volumes tendem a ser muito grandes. Entretanto, esse volume refere-se à necessidade total de energia, admitindo-se que o animal não está ingerindo nenhuma outra fonte energética. Pode, assim, ser diminuido na dependência de cada caso. Além disso, esse volume refere-se à necessidade por um período de 24 horas e não deve ser aplicado de uma só vez. Deve ser dividido em 2 a 6 aplicações por dia.

    Concentração de glicose (em %) em soluções e produtos comerciais:

    Glicose 50%50
    Aminovit®10
    Androsoro®10
    Biorresistin®10
    Biovit®10
    Stimovit®10
    Bioxan®6
    Hertavita®5
    Glicose 5%5
    Bicarbonato de sódio 1,3%0
    Ringer c/ Lactato0
    Salina 0,9%0
    Ringer0

    Vitaminas: (vitamina B1, B2, B6, B12, pantotenato de cálcio, nicotinamida, etc.) não são necessárias.

    Aminoácidos: (colina, metionina, etc) não são necessários.

    * * *