Guia On Line de Clínica Buiátrica
Maurício Garcia, Alice M.M.P. Della Libera, Ivan R. Barros Filho

Afecções do sistema circulatório

Abordagem na anamnese e no exame geral

Devem ser inquiridos o início dos sintomas, a duração, a progressão e o número de animais envolvidos. O esquema profilático de parasitas, como vermifugações e pulverizações também deve ser checado. Além dos aspectos específicos do sistema circulatório, devem ser avaliados, ainda, outros sistemas, principalmente o respiratório.

Exame especial

Inspeção

O exame do sistema circulatório deve iniciar pela inspeção geral do animal, verificando a presença de edemas na região sub-mandibular (ganacha), barbela e membros.

A dilatação abdominal também deve ser avaliada, pois pode indicar ascite. O acúmulo generalizado de líquidos (edemas, ascite) é chamado de anasarca e acompanha as insuficiências cardíacas graves. O animal deve, tambem, ser observado após ser submetido a algum esforço físico para verificar sua resistência. Deve-se, ainda, inspecionar as grandes veias do animal. Em bovinos leiteiros, a veia mamária apresenta-se permanentemente repleta e facilmente visível. A veia jugular, porém, não é facilmente visível em condições normais e sua repleção espontânea e evidente comumente associa-se a distúrbios circulatórios. A veia jugular torna-se visível se for feita uma ligeira compressão na região ventral do pescoço do animal (prova do garrote). Todavia, a jugular deve ingurgitar-se apenas na porção próxima à cabeça. Caso haja o seu ingurgitamento também na porção próxima ao coração, provavelmente está-se diante de um quadro de estenose/insuficiência da valva tricúspide (comum em endocardites bacterianas).

Em animais não muito gordos, pode ser observado um pulso rítmico da veia jugular fisiológico. Todavia, é importante verificar se esse pulso não coincide com a sístole cardíaca, já que neste caso o pulso observado significa o refluxo sangüíneo devido a uma insufuciência da valva tricúspide. O pulso venoso fisiológico e pré-sistólico, também chamado de pulso venoso negativo. Já o pulso venoso sistólico é patológico e chama-se pulso venoso positivo.

Palpação

O pulso arterial pode ser avaliado pela palpação da artéria maxilar externa ou da artéria coccígea. A palpação da região cardíaca pode, ainda, revelar levemente os batimentos do coração (choque da ponta), principalmente em animais magros e em pequenos ruminantes.

Em certas doenças pode ser notado pela palpação da região cardíaca um atrito semelhante ao "ronronar" dos gatos. Trata-se de um frêmito pericárdico que costuma aparecer nos quadros de pericardite traumática. É importante, porém, saber diferenciar o frêmito pericárdico de um frêmito pleural. Tal diferenciação é feita pela observação da movimentação respiratória e dos batimentos cardíacos, verificando-se com qual destes há o sincronismo do frêmito.

Percussão

Esse método semiológico, assim como a auscultação, aplica-se especificamente ao exame do coração. O coração encontra-se apoiado sobre o externo, entre o 3º e o 5º espaço intercostal. Apesar do coração estar deslocado para o lado esquerdo ele pode e deve ser examinado pelos dois lados. É necessário, entretanto, que o membro anterior do lado a ser examinado seja deslocado para frente por um auxiliar para que se possa ter acesso à região cardíaca.

A percussão do coração revela um som submaciço já que o coração não toca diretamente o gradil torácico, havendo a interposição do pulmão. Tal condição é conhecida como macicez relativa e é particular dos ruminantes já que nestes animais não há macicez absoluta como ocorre, por exemplo, nos eqüinos. A pericardite traumática pode alterar este som tornando-o maciço, além do animal manifestar sensibilidade.

Auscultação

A auscultação permite ouvir a primeira e a segunda bulha cardíaca. A primeira bulha é provocada pelo fechamento das valvas atrio-ventriculares (mitral e tricúspide) e a segunda refere-se às válvulas sigmóides (pulmonar e aórtica). Eventualmente podem aparecer ruídos anormais (sopros) sendo importante identificar se são coincidentes com a primeira ou a segunda bulha, o que pode ajudar na determinação de sua localização. A auscultação do coração permite também a determinação da freqüência cardíaca.

Deve-se, por fim, auscular os focos das válvulas cardíacas. No lado esquerdo encontram-se os focos da pulmonar (3º espaço intercostal), aórtica (4º) e mitral (5º). O foco da tricúspide encontra-se no lado direito, no 3º espaço intercostal.

Exames complementares

Para a complementação do exame do sistema circulatório, podem ser feitos exames de sangue, sobretudo dosagens de proteínas, para haver a diferenciação entre a hipoproteinemia e a insuficiência cardíaca nos quadros de anasarca. Da mesma forma, a punção do abdômen para exame do líquido ascítico (paracentese) pode diferenciar os quadros gerais não inflamatórios (p. ex. hipoproteinemia) dos inflamatórios (p. ex. peritonite).

Em casos de bradicardia, pode ser feita a prova da atropina. Esta prova consiste na injeção subcutânea de 40 mg de sulfato de atropina provoca aumento na frequência cardíaca evidenciando a origem extrínseca da bradicardia (a bradicardia de origem intrínseca não responde à estimulação da atropina).

Por fim, são utilizados o eletrocardiograma, o ultrassom e a radiografia.

Abordagem propedêutica

Quando se pensa em doenças do sistema circulatório a primeira imagem que se tem é de doenças do coração. Todavia, as enfermidades deste órgão são relativamente raras nos ruminantes e a maior parte das doenças que acometem o sistema circulatório são de natureza extra-cardíaca.

De qualquer maneira é importante definir a finalidade primária do sistema circulatório para se compreender a sintomatologia básica das enfermidades que acometem este sistema. Assim, qualquer que seja a doença envolvida, iremos notar um prejuízo na circulação do sangue, quer seja causado pela alteração em sua viscosidade, quer seja causado pela diminuição da sua velocidade de circulação. O prejuízo na circulação sangüínea provoca o extravasamento de líquidos para o tecido intersticial, caracterizando um quadro sistêmico conhecido como anasarca. Diversas são as manifestações da anasarca. Pode-se ter o acúmulo de líquido na cavidade peritoneal (ascite), na cavidade toráxica (hidrotórax), no saco pericárdico (hidropericárdio) e no pulmão (edema pulmonar), além da ocorrência de edemas na região submandibular (edema de ganacha) e na parte inferior dos membros.

Em primeiro lugar, é importante diferenciar essas coleções líquidas e esses edemas daqueles causados por outras enfermidades. A ascite ocorre em enfermidades circulatórias, mas pode ocorrer também nos casos de peritonite. Na peritonite, porém, o líquido acumulado é tipicamente um exsudato, ao passo que na ascite de origem circulatória trata-se de um transudato. O mesmo raciocínio vale para o hidropericárdio que ocorre nos casos de retículo-pericardite traumática. O edema pulmonar pode ocorrer em diversas situações não circulatórias, como a broncopneumonia verminótica e a pneumonia enzoótica dos bezerros.

Da mesma forma que as coleções líquidas, os edemas podem também ser de natureza inflamatória. Nestes casos eles se apresentam quentes e dolorosos, ao passo que nos edemas de origem circulatória eles são frios e indolores. As principais causas de edema inflamatório são os traumatismos, as picadas por insetos e os acidentes ofídicos botrópicos. Em membros, a pododermatite circunscrita e a podridão dos cascos também podem provocar edemas de natureza inflamatória. Animais leiteiros, especialmente novilhas, podem desenvolver edema patológico de úbere por ocasião do parto que pode se extender aos membros.

Através das observações citadas pode-se, então, caracterizar se há ou não o envolvimento do sistema circulatório. Feito isso, o passo a seguir é definir se o prejuízo notado na circulação do sangue está sendo causado por diminuição em sua viscosidade ou por diminuição da sua velocidade de circulação.

Diminuição da viscosidade do sangue

A principal causa de diminuição da viscosidade do sangue é a hipoproteinemia. Tal condição é facilmente demonstrável através da dosagem laboratorial de proteínas séricas. Anasarca decorrente de hipoproteinemia talvez seja o quadro mais freqüente dentre as diversas enfermidades que acomemtem o sistema circulatório. As causas de hipoproteinemia podem estar relacionadas com um aumento na eliminação das proteínas sangüíneas, como nas lesões renais (leptospirose). As causas mais freqüentes, porém, estão relacionadas com a diminuição na síntese de proteínas. A verminose, particularmente dos caprinos e ovinos, é a principal causa de hipoproteinemia dos ruminantes. Trata-se de uma enfermidade provocada por diversas espécies de helmintos estrongilídeos, dentre as quais destaca-se o Haemonchus contortus. Este verme parasita o abomaso do hospedeiro, aonde provoca grave perda de sangue por hemorragia e por hematofagia. Assim, a hipoproteinemia agrava-se com a perda de plasma. Os animais afetados apresentam emagrecimento acentuado, palidez de mucosas e edema de ganacha.

O tratamento deve ser feito com a aplicação de antihelmínticos, tomando-se o cuidado de respeitar a dose correta do princípio ativo, pois não é raro a formulação comercial indicar sub-doses. Devem ser usadas as seguintes doses: levamisol 7,5 mg/kg (Citec®, Ripercol®); febendazol 8,0 mg/kg (Panacur®); albendazol 8,0 mg/kg (Alnor®, Valbazen®); oxfendazol 5,0 mg/kg (Systamex®). Os antihelmínticos da família das ivermectinas (Ivomec®, Baymec®, Virbamec®, Duotin®, Cydectin®, Dectomax®) são muito populares. Todavia, os antihelmínticos mais antigos, como o disofenol (Rumivac®), têm sido novamente empregados face ao desenvolvimento de resistência dos vermes aos produtos mais modernos. As infestações específicas por H. contortus podem também ser tratadas pelo rafoxanide (Ranide®) que também atua na fasciolose. A eficácia da aplicação do antihelmíntico só pode ser avalidada através de exame de fezes, que deve ser feito após cerca de 7 dias da aplicação.

Em casos de grave anemia, deve-se proceder a transfusão sangüínea, respeitando-se os seguintes itens:

  • Hematócritos abaixo de 15% normalmente indicam a necessidade de transfusão.

  • Administrar de 10 a 20 ml/kg de sangue em uma única aplicação.

  • O doador deve estar em bom estado e pode doar até 10 ml/kg de peso vivo. Assim, o ideal é que o doador possua, no mínimo, o dobro do peso do receptor.

  • Colher o sangue em frascos ou bolsas contendo anticoagulante ACD (ácido citrato dextrose), na proporção de 4 partes de sangue para 1 de ACD.

  • De preferência, aplicar o sangue logo após a colheita. Se for necessário aguardar, porém, manter refrigerado. Não congelar em hipótese alguma, caso contrário ocorrerá a hemólise. O sangue refrigerado não deve, ainda, ser aquecido no momento da aplicação. Deve-se apenas aguardar que ele atinja a temperatura ambiente.

  • Se for necessário, porém, repetir a aplicação num prazo nunca superior a 5 dias da primeira aplicação, para serem evitados os riscos transfusionais.

  • Após a aplicação de cerca de 10% do volume total, interromper a aplicação e administrar lentamente de 50 ml (pequenos ruminantes) a 250 ml (bovinos) de borogluconato de cálcio (Glucafós®, Valléecálcio®). Continuar, em seguida, a aplicação.

  • Suspender a aplicação em casos de reação à transfusão: inquietação, tremores, salivação, lacrimejamento, micções e defecações (hipersensibilidade tipo II). Nestes casos, convém administrar adrenalina (solução 1:1000) na dose de 0,02 a 0,03 mg/kg via I.V.

  • Avaliar o resultado da transfusão 24 horas depois, através de hemograma.

    Durante a fase de recuperação do quadro anêmico, o animal pode receber, por via oral, de 1 a 10 g (dependendo do porte do animal) de uma mistura mineral com a seguinte composição: sulfato ferroso 20 partes, sulfato de cobre 2 partes e sulfato de cobalto 1 parte. Além disso, a aplicação de complexo B pode ajudar.

    Se após 15 dias, o quadro anêmico persistir, pode-se estar diante de uma situação não regenerativa, comum em hipóxias anêmicas prolongadas. Nestes casos, pode ser útil a aplicação de vitamina C e anabolizantes (Decadurabolin®).

    O suporte geral do animal, por fim, é fundamental. Nesta categoria incluem-se os cuidados de enfermaria, sobretudo em animais em decúbito, a hidratação e a dieta adequada.

    Além da verminose, não é raro a ocorrência simultânea de pediculose (anopluras) ou carrapatos, fato que agrava ainda mais a anemia e a hipoproteinemia. Em ovinos, é comum um quadro semelhante causado, porém, por lesão hepática decorrente da fasciolose.

    Convém, porém, fazer uma pausa para discutir outras causas de anemia nos ruminantes. Assim como a anemia verminótica, podem ocorrer outras causas da anemia dita "hemorrágica", como nos casos de hematúria enzoótica e de intoxicação por veneno de rato (warfarin), além dos casos de traumas e cirurgias. Este grupo de etiologias diferencia-se de outro grupo dito "hemolítico". Neste último caso, têm-se como principais causas a babesiose (Babesia spp), a leptospirose (Leptospira interrogans), e as intoxicações por cobre e por veneno crotálico (ver acidentes ofídicos). As anemias hemolíticas podem ser facilmente diferenciadas das anemias verminóticas por provocarem aumento na dosagem de bilirrubina sérica sem o aumento correspondente das enzimas hepáticas (AST, gGT, etc.). Além disso, nas anemias hemolíticas pode ser encontrada hemoglobinúria. Nas anemias hemorrágicas não há hiperbilirrubinemia nem aumento de enzimas hepáticas, a não ser que ocorra lesão do fígado. As anemias podem, ainda, ser causadas por graves carências nutricionais, sobretudo de vitamina B12 e cobalto.

    O complexo anaplasmose-babesiose, popularmente chamado de "tristeza bovina" ou plasmose bovina, é uma hemoparasitose (hemopatia de origem parasitária) causada por um protozoário (babesiose-Babesia bovis, Babesia bigemina etc) e por uma rickettsia (anaplasmose-Anaplasma marginale), ambos parasitos de eritrócitos.O carrapato (Boophilus microplus) é o transmissor e responsável pelo contínuo contato entre parasita (babesias e anaplasmas) e hospedeiro (principalmente bovinos) exigindo que o organismo do animal mantenha constante controle da parasitemia.

    A doença se manifesta quando o animal entra em contato com o parasita pela primeira vez (p.ex. animais importados, transferidos de regiões isentas da doença para regiões enzoóticas), quando ficam muito tempo sem contato com o carrapato ou quando debilitados (resistência diminuída). A transmissão também pode ocorrer por via transplacentária e iatrogênica.

    Tanto na babesiose quanto na anaplasmose (podem ou não estar associadas), o animal apresenta síndrome febre e anemia. Na anaplasmose, as hemáceas parasitadas são sequestradas e destruídas no baço (anemia autoimune) e na babesiose ocorre hemólise intravascular (anemia hemolítica), nesta última, a hemoglobina livre - hemoglobinemia - pode levar à icterícia e hemoglobinúria. Surtos agudos levam, inicialmente, à anemia macrocítica. Pode ocorrer abortamento. Quando o animal foi exposto anteriormente à infecção ou quando a espécie do parasita em questão é de baixa patogenicidade, os sintomas são discretos. A infecção por B. bovis é considerada mais patogênica e uma pequena parasitemia pode levar a hematócritos muito baixos além da capacidade de ativar certos componentes plasmáticos que induzem à estase circulatória, choque e coagulação intravascular que, principalmente no cérebro, promovem importante lesão tissular (nestes casos ocorre sintomatologia nervosa e geralmente morte). Sintomas cerebrais podem ser confundidos com Raiva e outras encefalites.

    O diagnóstico é feito através da sintomatologia e exame hematológico (pesquisa de hemoparasitas e hemograma). A pesquisa dos hematozoários em esfregaço sanguíneo corado com Giemsa é mais indicado na fase febril aguda, fora desta fase torna-se difícil ou mesmo impossível encontrá-los na circulação.

    O tratamento para babesiose é a base de quimioterápicos como Ganaseg® e Beronal®. Para anaplasmose, usa-se a tetraciclina - 10 mg/kg durante 3 dias (Terramicina LA®, Terramicina®, Talcin®, Oxivet LA®, Oxitac®, Oxiritard®, etc). O imidocarb (Imizol®) é um quimioterápico que atua em ambas enfermidades. Geralmente, os animais tratados passam a ser portadores crônicos, resistentes à episódios posteriores. Assim, tratamentos que objetivem a completa eliminação dos hemoparasitas, descartam o estado de portador crônico mas deixam o animal sensível a uma reinfecção. Alguns casos podem requerer a utilização de anti-térmicos (Novalgina®, D500®), fluidoterapia e transfusão de sangue (ver procedimentos para transfusão em verminose).

    A profilaxia inclui a premunição de rebanho oriundo de região isenta de carrapatos e/ou de babesiose e anaplasmose.

    Diminuição da velocidade do sangue

    Outro grupo importante de doenças do sistema circulatório relaciona-se com a diminuição na velocidade de circulação do sangue. Esta situação provoca estase do sangue com conseqüente congestão. As lesões do coração usualmente provocam este quadro conhecido como insuficiência cardíaca congestiva (ICC). As principais causas de envolvimento cardíaco são a endocardite bacteriana decorrente da septicemia de processos supurativos, a retículo-pericardite traumática, as neoplasias (leucose bovina) e a síndrome de Hoflund. Também podem ocorrer, em menor freqüência, as mal-formações congênitas do coração, como as comunicações inter-ventriculares.

    Os animais afetados podem apresentar sopros cardíacos à auscultação e alterações detectáveis no exame da jugular (prova do garrote, pulso venoso, estase da jugular). Outra causa freqüente de congestão sangüínea é o decúbito prolongado em bovinos, como ocorre nos casos de decúbito patológico.

    Bibliografia

    CHARLESTON, W.A.G. & COLLINS, G.H. Anthelmintics for use in animals. New Zealand: Massey University, 1977.

    GARCIA,M.; D'ANGELINO,J.L.; BIRGEL,E.H. Leucose Bovina no Brasil. Comunicações Científicas da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. v.15, p.31-42, 1991.

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