Guia On Line de Clínica Buiátrica
Maurício Garcia, Alice M.M.P. Della Libera, Ivan R. Barros Filho

Afecções do sistema digestório

Introdução

Os ruminantes desenvolveram, ao longo dos milhares de anos de sua evolução, uma espetacular capacidade em transformar alimentos grosseiros em proteínas de alta qualidade. Este fato se deve a duas particularidades. A primeira consiste em seu processo de mastigação que ocorre em duas etapas. Inicialmente, o ruminante ingere rapidamente seu alimento, com pouca mastigação. Posteriormente, esse alimento retorna de seus reservatórios gástricos para a boca para que possa ser feita a segunda etapa da mastigação, mais lenta e elaborada, conhecida como mastigação merícica. Em alguma etapa de seu processo evolutivo, esta característica foi bastante útil, já que permitia que os animais ingerissem rapidamente o farto capim das áreas mais abertas, porém mais vulneráveis ao ataque de predadores. Mais protegido e sob condições favoráveis, o animal realizava a segunda etapa de sua mastigação. Até hoje os ruminantes mantêm esta característica. Quando observamos, por exemplo, uma vaca realizando a mastigação merícica, podemos ter certeza que ela se julga segura e protegida.

Arraçoamento excessivo pode causar problemas digestivosGado leiteiro é mais susceptível

A segunda particularidade do sistema digestório dos ruminantes é a presença de pré-estômagos, colonizados por várias espécies de bactérias, protozoários e fungos saprófitas. O complexo rúmen-retículo destes animais tornou-se uma cuba de fermentação, que num bovino adulto pode chegar até 200 litros de volume. Nesta cuba, alimentos celulósicos de difícil digestão para os animais monogástricos são metabolizados pelos microorganismos ruminais que a partir deles sintetizam suas proteínas estruturais.

Ao que tudo indica, esta particularidade dos ruminantes evoluiu a partir de animais pré-históricos monogástricos. Sinal disto é que o embrião do ruminante inicia seu desenvolvimento como monogástrico, segundo a teoria postulada pelo anatomista alemão do século XIX, Ernest Haeckl: "a ontogênese recapitula a filogênese".

O sistema digestório dos ruminantes é consistentemente dividido em porções anatômica e fisiologicamente distintas. A compreensão desta característica facilita o entendimento dos diferentes processos patológicos que acometem suas estruturas. Podemos dividir o sistema digestório seis porções: vias digestivas anteriores (boca, faringe e esôfago), pré-estômagos (retículo ou barrete, rúmen ou pança, omaso ou folhoso ou saltério), abomaso ou coagulador, intestinos (grosso e delgado) e fígado.

Abordagem na anamnese e no exame geral

Além das informações tradicionais, devem-se pesquisar durante a anamnese os dados sobre a alimentação do animal. Convém verificar a composição (qualidade), a quantidade e a forma (freqüência, horário) de administração dos alimentos. Eventuais alterações de apetite (anorexia, hiporexia, parorexia) devem também ser indagadas. No exame geral, devem ser pesquisados sinais espontâneos de dor, como ocorre nos casos de cólica intestinal. O exame das mucosas pode sugerir envolvimento hepático, nos casos de icterícia.

Exame das vias digestivas anteriores

A preensão dos alimentos deve ser avaliada, considerando-se as diferenças entre espécies. Pequenos ruminantes realização a prensão através da movimentação labial, ao passo que os bovinos a fazem através da movimentação da língua. Em seguida, deve-se avaliar a mastigação e a deglutição. O apetite deve ser checado, oferecendo-se ao animal vários tipos de alimentos para se verificar se o apetite está normal (normorexia), caprichoso (hiporexia), alterado (parorexia) ou ausente (anorexia). Nunca se deve confiar exclusivamente na anamnese no tocante ao apetite do animal.

A ingestão de água também deve ser considerada. Bovinos adultos sadios ingerem de 25 a 80 litros de água por dia (quanto mais concentrados na alimentação, mais água é ingerida).

A presença de ruminação é, de forma geral, um indicador de saúde digestiva. Bovinos adultos ruminam várias vezes por dia e chegam a dispender até sete horas por dia com esta atividade (quanto mais concentrado na alimentação, menos tempo de ruminação). A regurgitação patológica é raríssima e, quando ocorre, usualmente é de origem esofágica (vômito falso).

A fermentação ruminal produz cerca de 600 L gás/dia (66% CO2, 26% CH4, 8% demais) (quanto mais concentrado, mais gás). Este gás tem que ser eliminado constantemente, e o animal o faz através da eructação. Distúrbios neste mecanismo provocam o acúmulo de gás no rúmen, conhecido como timpanismo ou meteorismo.

Os ruminantes salivam muito. Um bovino adulto chega a produzir até 200 L de saliva por dia, que são deglutidos. Excesso nesta produção chama-se ptialismo e quando escorre da boca recebe o nome de sialorréia.

O exame da parte anterior da cavidade oral pode ser feito através da inspeção, abrindo-se a boca do animal com as mãos, puxando-se a língua com uma toalha. Podem também ser usados aparelhos próprios, chamados de "abre-bocas". A porção posterior da cavidade oral pode ser inspecionada com o uso de espéculos. O odor bucal também deve ser avaliado.

O esôfago encontra-se dorsalmente a traquéia, deslocando-se para o lado esquerdo na porção cervical, voltando a sua posição dorsal na porção torácica. A sua inspeção externa e palpação direta pode ser realizada apenas da porção cervical. Em toda sua extensão, porém, pode ser feita uma palpação indireta com sondas esofágicas apropriadas. A inspeção indireta do esôfago pode ser realizada pela endoscopia.

As vias digestivas anteriores podem ser avaliadas, ainda, através de recuros radiográficos.

Exame da região abdominal

À exceção do esôfago e cavidade oral, os órgãos do sistema digestório dos ruminantes se encontram na cavidade abdominal. O exame desta região representa, assim, um dos principais pontos a serem observados para o diagnóstico das afecções do sistema digestório.

Cabe lembrar que o tamanho dos órgão do sistema digestório sofrem radical mudança com o desenvolvimento do animal. A proporção rúmen-abomaso é de 1:2 em animais com um mês de idade, invertendo-se para 2:1 no 3º mês, chegando a 9:1 no adulto, na dependência da alimentação.

Projeção topográfica

No adulto, o rúmen ocupa principalmente o lado esquerdo do animal e seu volume chega a quase 150 litros nos bovinos. Tem como limite anterior uma linha que vai do 11º espaço intercostal na parte dorsal até o 7º espaço na parte ventral. O rúmen contrai-se ritmicamente e a freqüência destas contrações aumenta após a ingestão de alimentação grosseira e cessa após dois dias de jejum.

O retículo encontra-se apoiado na cartilagem xifóide entre o 5º e o 7º espaço intercostal. Projeta-se para ambos os lados, mas é mais proeminente do lado esquerdo. O omaso pode ser delimitado entre o 7º e o 9º espaço intercostal, no terço médio do lado direito e o abomaso, do 7º ao 11º espaço intercostal, no terço inferior do lado direito. A projeção topográfica do fígado encontra-se na parte superior do lado direito, entre o 11º e o 12º espaço intercostal, adjacente ao bordo caudal do pulmão.

Técnicas de exame

A inspeção abdominal externa pode revelar aumentos de volumes em diferentes partes, cada uma com seu significado diagnóstico (veja adiante em dilatações abdominais).

A palpação auxilia tanto na avaliação da conteúdeo das diferentes vísceras abdominais quanto na pesquisa de sensibilidade. Na palpação do rúmen, a sua contração pode ser sentida com a aplicação da mão fechada no vazio do flanco. Pode-se palpar o retículo de forma indireta, pressionando-o com um bastão de madeira ("prova-do-bastão"). Outras provas complementares para a pesquisa de sensibilidade do retículo podem ser empregadas, como o pinçamento da cernelha e a prova de Kalchschmidt (uso discutível). A palpação retal, ainda, é indispensável para o exame dos órgãos digestórios, particularmente dos intestinos. No caso do retículo, a palpação direta externa e a inspeção não são possíveis, devido sua posição intratorácica.

A percussão tem, de forma geral, o mesmo objetivo da palpação, qual seja, avaliar o conteúdo das vísceras e pesquisar sensibilidade. A percussão permite, também, a delimitação topográfica destas vísceras. De maneira geral, o abdômen apresenta sons maciços e submaciços na sua porção ventral e medial. A região hepática também apresenta som maciço. Na parte do vazio do flanco, tanto direito como esquerdo, encontram-se sons timpânicos.

Finalmente, a auscultação é um potente recurso a ser empregado na análise funcional do sistema digestório. O rúmen apresenta uma crepitação constante que se exacerba durante a sua contração. Neste momento, pode ser auscultado, na porção ventral, o ruído de rolamento produzido pela movimentação do conteúdo ruminal durante a contração. O omaso apresenta uma crepitação discreta. O abomaso e o intestino apresentam ruídos de borborigma.

Pode ser empregada uma técnica mista, conhecida como percussão-auscultatória, particularmente útil no diagnóstico do deslocamento do abomaso. É importante, porém, salientar que a presença de "pings" abdominais não necessariamente signfica o deslocamento do abomaso. Os "pings" podem aparecer nos casos de pneumoperitônio que acompanham os quadros de reticulo-peritonite traumática, nos timpanismos ruminais e na dilatação do ceco.

Exames complementares

Suco de rúmen: colhido através de sonda esofágica própria e analisado segundo procedimentos bastante simples. Dentre estes procedimentos, os mais usuais e que podem ser realizados no campo são:

  • aspecto: normalmente é ligeiramente viscoso, mas pode apresentar-se aquoso (indigestão simples , acidose lática ruminal), com espumas (timpanismo espumoso) ou muito viscoso (excesso de saliva, desidratação).
  • coloração: dependendo da alimentação.
  • sedimentação e flutuação: em uma proveta de 100 mL deposita-se o suco e aguarda-se a separação em três fases (sedimento, líquido e flutuante). Essa separação deve ocorrer no máximo em 10 minutos. Na acidose lática ruminal, por exemplo, o suco não apresenta estas fases.
  • odor: característico nos casos de putrefação ruminal.
  • pH: normal de 5,5 a 7,0.
  • Redução do azul de metileno: em uma proveta de 50 mL, depositar 20 mL de suco de rúmen e acrescentar 4 mL de solução de azul de metileno 0,03%. Após a homogeinização o suco deve ficar azul. Em 3 a 5 minutos o suco deve volar à coloração inicial. Sucos inativos não recuperam o aspecto inicial (comparar com uma proveta sem azul de metileno).

    Láparo-ruminotomia exploradora: um recurso de grande utilidade, apesar de ser pouco empregado. Muitos clínicos tem certo receio em realizá-la, sob medo das eventuais complicações pós-operatórias. Trata-se, entretanto, de procedimento relativamente simples e de raras complicações. A laparo-ruminotomia, além de ser um método semiológico, consiste também num recurso terapêutico importante (figuras 1 a 8).

    Detector de metais: este aparelho detecta se há ou não estruturas metálicas, não determinando, porém, se tais estruturas são pontiagudas e, se são, se realmente estão perfurando a parede do retículo provocando retículo-peritonite traumática. Em alguns animais, sobretudo nos importados, existe a prática de se colocar um ímã no retículo para a prevenção da doença. Quando estes animais são submetidos ao detector de metal evidentemente há uma resposta positiva. Para se determinar a presença de um ímã no interior do retículo deve-se aproximar da região xifóide uma bússola, observando-se o comportamento do ponteiro.

    Punção abdominal (paracentese): pode ser empregada no diagnóstico do deslocamento do abomaso, avaliando-se o pH do líquido visceral colhido. Esta punção pode, ainda, restringir-se ao espaço inter-visceral para colher o líquido peritoneal, muito útil no diagnóstico diferencial das ascites e peritonites. Para se pesquisar ascite/peritonite deve-se fazer a punção um palmo à direita do umbigo, na região mais baixa do abdôme. Nos casos de retículo-peritonite traumática, pode-se puncionar logo após a cartilagem xifóide. Nos casos de ruptura de intestino pode-se puncionar entre o úbere e a dobra do joelho.

    Exame de fezes: além do tradicional exame coproparasitológico, pode revelar a condição funcional do sistema digestório através da avaliação macroscópica do tamanho das suas partículas. Além disso, avalia-se a presença de muco, fibrina e sangue.

    Pode-se, por fim, realizar exames microbiológicos específicos para se pesquisar a presença de agentes como salmonelas, E. coli e rotavirus. Podem ser citados, ainda, outros exames como a biópsia hepática, a endoscopia, a laparoscopia, a ultrassonografia, a radiografia e os testes de função hepática.

    Abordagem propedêutica

    Independentemente da causa e da sede do processo, os animais acometidos de enfermidades do sistema digestório apresentam sintomatologia básica comum caracterizada por apatia, anorexia ou hiporexia, perda de peso e diminuição da produção de leite. Todavia, alguns sintomas são particulares e merecem ser analisados individualmente. Destacam-se as lesões visíveis da cavidade oral (vesículas, úlceras, estomatite, etc.) e aqueles causados por obstrução do esôfago. Na região abdominal podemos observar dilatação, dor e timbre metálico. Por fim, a diarréia é um sinal facilmente detectável e indicativo de envolvimento intestinal.

    Lesões da cavidade oral

    Quando se examina a cavidade oral, a primeira preocupação é identificar a presença de vesículas ou, quando estas se rompem, úlceras. A contaminação destas úlceras por bactérias secundárias pode provocar um quadro local purulento. As doenças vesiculares incluem principalmente a febre aftosa e a estomatite vesicular. Outras viroses que provocam lesões semelhantes na cavidade oral podem também ser citadas, como a febre catarral maligna, a doença das mucosas (diarréia vira; bovina), a doença da língua azul e a peste bovina. Os animais afetados perdem apetite, apresentam mastigação lenta e dolorosa e salivação profusa. Casos graves podem provocar o descolamento de toda mucosa da língua. Adicionalmente, devem ser procuradas lesões semelhantes no espaço interdigital e nos tetos. Fragmentos destas lesões podem ser colhidos e enviados para laboratório especializado para se confirmar o diagnóstico. O tratamento é local à base de antissépticos, tal como o permanganato de postássio. A febre aftosa é uma doença de notificação compulsória e na maioria dos estados brasileiros é obrigatória a vacinação, conforme calendário estipulado pelos órgãos de defesa sanitária animal.

    A condição da língua e das mandíbulas também deve ser pesquisada, já que doenças como a actinobacilose ("língua-de-pau"), a actinomicose ("queixo grumoso") e a osteodistrofia fibrosa ("cara-inchada") podem afetar estas estruturas. A actinobacilose ("língua-de-pau") é causada pelo Actinobacillus lignieresii e provoca edemaciamento, dor e lesões purulentas na língua do bovino. A actinomicose é uma doença distinta, causada pelo Actinomyces bovis e caracterizada por tumefação dos ossos da mandíbula. Às vezes estas tumefações podem fistular e drenar material purulento. Em ambos os casos o exame direto do material purulento pelo método de Gram e a cultura microbiológica podem confirmar o diagnóstico. O tratamento pode ser feito com antissépticos locais e com a administração diária de 10 gramas de iodeto de potássio via oral, durante 10 dias. Indica-se, ainda, o uso de antibióticos e sulfas.

    Nos pequenos ruminantes, pode ocorrer também o ectima contagioso. É uma doença específica de caprinos e ovinos, provocada por um poxvirus e provoca pequenas crostas na rima bucal e em volta das narinas. Mães amamentando animais com ectima podem apresentar a doença nos tetos. Trata-se de uma zoonose. O tratamento também é feito com antissépticos locais (permanganato de postássio, por exemplo) e a prevenção pode ser feita através da vacinação. Todavia, a vacinação só deve ser empregada em propriedades em que a doença já ocorra, pois se trata de vacina viva.

    Devem, por fim, ser avaliadas lesões dentárias e a presença de corpos estranhos.

    Obstrução do esôfago e faringe

    A obstrução do esôfago é relativamente comum nos bovinos, porém muito rara nos pequenos ruminantes. A principal causa é a ingestão de corpos estranhos volumosos como, por exemplo, frutas grandes (laranjas) ou seus caroços (manga). Neoplasias podem ocorrer no esôfago e a mais comum é o carcinoma (vulgarmente chamado de "caraguatá") provocado pela ingestão crônica da samambaia Pteridium aquilinum.

    A intoxicação por P. aquilinum também provoca um quadro urinário conhecido como hematúria enzoótica. A compressão externa do esôfago pode, por fim, ocorrer devido à abscessos tuberculosos ou nos casos de hérnia diafragmática.

    Os animais afetados apresentam disfagia, timpanismo e às vezes regurgitam o alimento recém ingerido. A inspeção e a palpação externa podem reforçar a suspeita e a confirmação pode ser feita pela palpação indireta, através de uma sonda esofágica. Caso a obstrução seja anterior, o exame das porções profundas da cavidade oral com auxílio de um espéculo pode permitir a visualização da obstrução.

    Nos casos de corpos estranhos localizados nas porções mais anteriores, incluindo a faringe, pode-se tentar removê-los pela boca, com a participação de uma auxiliar empurrando o corpo estranho por fora. Em casos de obstruções mais profundas, a única e nem sempre indicada possibilidade de tratamento é a cirurgia.

    Dilatação abdominal

    A dilatação abdominal é facilmente detectável, sobretudo nos bovinos. O primeiro passo é caracterizar a forma desta dilatação, definindo se é uni ou bilateral. A dilatação bilateral na sua porção superior é causada pelo pneumoperitônio. Trata-se do acúmulo de gás na cavidade abdominal comumente associado aos quadros de retículite traumática. Nestes casos, a percussão auscultatória revela a presença de timbre metálico bilateral.

    Quando ocorre a dilatação bilateral na porção inferior pode-se estar diante de um quadro de ascite. A ascite, ou hidroperitônio, é o acúmulo de líquido na cavidade abdominal. Muitas enfermidades provocam ascite e o primeiro procedimento para se diagnosticar consiste em colher uma amostra do líquido peritoneal através de punção na região mais baixa do abdômen. Uma vez colhido este líquido deve-se caracterizá-lo como exsudato ou transudadato. No primeiro caso, suspeita-se novamente de retículite traumática.

    Já no segundo caso (transudato), tem-se como principal suspeita em pequenos ruminantes, a hipoproteinemia. A causa mais frequente de hipoproteinemia em pequenos ruminantes é a verminose. Secundariamente pode-se suspeitar de fasciolose hepática. Nestes casos, também ocorre edema de ganacha e anemia. Em bovinos, a causa mais freqüente de ascite é a insuficiência cardíaca congestiva. A lesão hepática grave pode provocar ascite por hipoproteinemia, mas é rara nos bovinos. Nestes animais, as lesões primárias do fígado usualmente se manifestam por lesões de pele e mucosas amareladas, tal como a fotossensibilização.

    A dilatação abdominal unilateral direita ocorrer principalmente em gestações adiantadas ou na dilatação abomasal. Nos casos de gestação avançada (8o.-9o. mês), a dilatação do lado direito ocorre mais nas porções inferiores e a presença do feto pode ser confirmada por palpação retal ou pela sucussão do lado direito. A dilatação do abomaso, por sua vez, é mais superior e provoca à percussão auscultatória um timbre metálico semelhante ao pneumoperitônio, porém localizado.

    A dilatação unilateral esquerda ocorre nas diferentes formas de dilatação ruminal. Nos casos de dilatação ruminal é importante tentar caracterizar a natureza do conteúdo. A percussão diferencia, incialmente, os acúmulos gasosos dos acúmulos não gasosos. Nos acúmulos gasosos (timpanismo) têm-se o som hipersonoro ou até claro (curiosamente o timpanismo não provoca som timpânico).

    Nos acúmulos líquidos e sólidos o som se torna maciço. O acúmulo de líquidos pode ser diferenciado do acúmulo de sólidos pela palpação. A dilatação ruminal provocada por líquidos normalmente acompanha os casos de acidose lática ruminal. A dilatação por sólidos, por sua vez, caracteriza os quadros de empazinamento e a síndrome de Hoflund. A síndrome de Hoflund pode causar também uma dilatação abdominal mista (superior e inferior).

    Dor

    Em casos de dor intensa, o animal range os dentes ("bruxismo") e apresenta-se inquieto, escoicea o ventre, chegando até a deitar e rolar no chão. É uma cena muito marcante, sobretudo em bovinos de grande porte. Tal condição é relativamente rara, porém quando ocorre, usualmente decorre de processos obstrutivos do intestino.

    As causas de obstrução intestinal são o vôlvulo (torção do intestino), a intussucepção e a dilatação com torção do ceco. O animal apresenta-se inquieto, escoicea o ventre e chega a deitar e rolar no chão. Nestes casos a palpação retal revela o reto sem fezes e a presença de alças dilatadas. No caso de dilatação do ceco, pode-se perfeitamente palpá-lo. Na instussucepção nem sempre é possível palpar a parte do intestino afetada, a qual se assemelha a uma "salsicha" à palpação. O animal acometido deve ser submetido imediatamente a uma laparotomia pelo flanco direito para correção do problema. A hidratação, medicação de suporte e antibioticoterapia são indicadas no pós operatório.

    Excetuando-se os quadros obstrutivos, normalmente os quadros dolorosos abdominais são brandos e o animal apresenta-se apenas ligeiramente prostrado e hiporético. Quando se pressiona ou se percute o abdômen ou a região xifóide, o animal pode gemer ou apenas apresentar uma fisionomia de dor ("olhar ansioso"). Evidentemente, trata-se de uma descrição bastante subjetiva, mas o clínico experiente deve saber detectá-la. Tal condição pode indicar um caso de reticulite traumática.

    Timbre metálico (ping)

    O timbre metálico, também chamado de "ping", é um ruído bastante característico que se ausculta quando se realiza a percussão-auscultatória. Caso este timbre seja bilateral e na região do vazio do flanco, deve-se suspeitar de um processo de pneumo-peritônio decorrente de reticulite traumática.

    Às vezes, porém, o timbre metálico pode apresentar-se em apenas um dos lados do animal. Quando o lado é o direito, pode tratar-se de uma dilatação do abomaso ou do ceco. Todavia, este achado é raro. O mais comum é a presença de timbre metálico no lado esquerdo, nos casos de deslocamento do abomaso. Trata-se de um processo que acomete certas vacas que já possuem uma predisposição anatômica. Normalmente, o deslocamento ocorre logo após o parto, mas vai se manifestar apenas de 1 a 2 meses depois. O deslocamento do abomaso não deve ser confundido com a dilatação do abomaso, este último de ocorrência bastante rara em nosso meio e que restringe-se a uma dilatação do órgão que mantém sua posição original no lado direito do abdômem. Alguns autores, todavia, chamam esta enfermidade de “deslocamento do abomaso à direita”.

    No caso do “deslocamento do abomaso à esquerda”, ou simplesmente “deslocamento do abomaso”, os animais afetados apresentam-se hiporéticos e com diminuição da produção. As fezes tornam-se escassas e muito digeridas. O abomaso deslocado passa sob o rúmen para o lado esquerdo, permitindo o acúmulo de gás facilmente detectável pela percussão auscultatória. A punção desta região permite colher um líquido de pH de 2 a 3. Normalmente, o líquido colhido nesta posição é ruminal, cujo pH é de 5,5 a 7. Além disso, o exame microscópico do líquido mostra que ele está desprovido de protozoários.

    O tratamento é cirurgico, através de laparotomia realizada pelo flanco direito, com esvaziamento do gás do abomaso através de uma cânula provida de agulha. O abomaso é fixado pelo omento na parede abdominal (omentopexia) ou diretamente (abomasopexia). O suporte é feito com hidratação e antibioticoterapia.

    Diarréia

    A diarréia representa um dos principais problemas dos animais ruminantes. Não se trata de uma doença em si, mas sim a manifestação (um sintoma) de inúmeras enfermidades. O estudo das diversas afecções que provocam diarréia nos ruminantes é um capítulo à parte. Neste texto procuraremos abordar principalmente seus aspectos diagnósticos e terapêuticos.

    Diarréia é muito comum em bezerrosFezes diarrêicas no chão também indicam o problema

    A diarréia é muito comum nos animais novos, porém menos comum em adultos. Além disso, no caso particular dos bovinos, deve-se ter cautela ao analisar as suas fezes pois elas normalmente são amolecidas, o que pode levar ao clínico inexperiente a certa confusão. Nem sempre é possível presenciar a diarréia em si. Todavia, sinal de fezes diarrêicas são facilmente detectáveis na cauda e nas patas posteriores, sobretudo no jarrete ou mesmo no chão.

    Diversos são os mecanismos que provocam a diarréia, mas essencialmente trata-se de um distúrbio da absorção de água, fato que permite certos autores a considerá-la como uma síndrome de má absorção. A má absorção pode ocorrer devido a lesões da parede intestinal, por hipermotilidade de sua musculatura ou por excesso de água intra-luminal, quer seja de origem osmótica, quer seja por aumento na secreção.

    O principal fator predisponente de diarréia dos ruminantes é a quebra de resistência que pode ocorrer em animais jovens. Este fato pode ocorrer em animais submetidos a condições estressantes como superlotação, frio ou calor intenso, pouca ventilação, etc. Todavia, a causa mais freqüente é a insuficiente ou retardada ingestão do colostro.

    O colostro materno é rico em IgA que forma na mucosa intestinal do animal jovem um filme imunoprotetor. Para tanto, a mólecula de IgA deve ser absorvida inteira, fato que só ocorre até seis horas depois do nascimento. Animais que demoram para receber o colostro ou o recebem em quantidades insuficientes apresentam verdadeiros "poros" neste filme de IgA, por onde penetram inúmeros agentes, como Echerichia coli, Salmonella spp, Rotavírus, Coronavírus, etc.

    Outra causa de diarréia em ruminantes é decorrente de manejo higiênico deficiente. Nestas condições, ocorre a contaminação dos alimentos, o que submete o animal a uma carga patogênica muito grande de coliformes fecais e de protozoários, sobretudo a eimeria (coccidiose).

    Diarréia de origem nutricional também pode ocorrer. Em animais jovens ela está relacionada com excessiva ingestão de leite. Em adultos ela pode ocorrer quando os animais são colocados em pastagem jovem, rica em brotos.

    Podem, ainda, ser citadas outras causas de diarréia, como a diarréia viral bovina (DVB) e a paratuberculose.

    O primeiro sinal da perda de água é a desidratação. Animais com desidratações leves (de 5 a 10%) apresentam diminuição da elasticidade da pele. Desidratações moderadas (de 10 a 15%) provocam, além da perda de elasticidade, a retração do globo ocular (enoftalmia). Desidratações graves (acima de 15%) são pré-comatosas, fazendo o animal apresentar os sintomas anteriores e extremidades frias.

    Não é só água, porém, que o animal perde com a diarréia. Perdem-se eletrólitos e bicarbonato, o que provoca um quadro de acidose metabólica. O sinal mais característico da acidose metabólica é a taquipnéia. Tal sinal representa mecanismo compensatório, pois desta forma o animal perde mais CO2. Esta é uma forma do animal livrar-se do ácido carbônico, que se dissocia em H2O e CO2 (H2CO3 < > H2O + CO2).

    Certos agentes infecciosos causam septicemia, o que faz o animal apresentar febre, anorexia, apatia e congestão de mucosas.

    O tratamento da diarréia incia-se pela imediata reposição de água e eletrólitos. Existem inúmeras fórmulas e métodos matemáticos para o cálculo da quantidade a ser resposta. De maneira grosseira e com intuitos práticos, porém, pode-se estimar doses de 30 a 60 mL de solução hidratante por kg de peso, a cada 12 horas, na maior parte dos casos de desidratação leve e moderada. Em desidratações severas, pode-se chegar até a 120 mL/kg de solução hidratante. A fórmula da solução hidratante também varia muito. Em princípio, ela deve conter eletrólitos como cloreto de sódio, cloreto de potássio e cloreto de cálcio. Esta solução é chamada de "Ringer". É muito comum encontrar a solução de ringer associada ao lactato de sódio, que atua como tamponante para o combate da acidose que acompanha os quadros de diarréia. A solução assim composta é chamada de "Ringer com Lactato". Esta é a solução ideal para a hidratação intravenosa. Alguns produtos do mercado associam ao ringer com lactato outros elementos, como glicose, complexo B e protetores hepáticos (Stimovit®, Androsoro®, Bioxan®).

    Muitas vezes, porém, a hidratação pode e deve ser feita por via oral. Existem no mercado inúmeros produtos para hidratação oral, os quais podem ser encontrados já diluídos ou em pó para reconstituição (Osmolar®).

    A rehidratação é, sem dúvida, o ponto crítico da terapia das diarréias. Outras drogas, porém, possuem indicação de uso bastante controversa. Os antibacterianos, como sulfas e antibióticos, podem atuar diminuindo a população de bactérias e coccidias (no caso das sulfas), porém não atuam sobre os vírus. Os protetores de mucosa, como caulim e pectina, também têm sua eficácia discutida, inclusive na Medicina Humana. Por fim, o uso de anticolinérgicos com o intuito de diminuir a motilidade intestinal é muito perigoso no caso de enterites infecciosas, pois há o acúmulo intestinal e aumento na absorção de toxinas bacterianas.

    Animais jovens com diarréias severas ou com diarréias de origem nutricional devem ter o fornecimento de leite temporariamente suprimido. Nestes casos, a aplicação de soluções com glicose é indicada como suporte. O leite deve voltar a ser administrado aos poucos, diluído na solução hidratante em concentrações gradativamente maiores.

    Indigestões sem sintomatologia específica

    Algumas doenças do sistema digestório podem não apresentar nenhum dos sintomas descritos anteriormente. Tratam-se de doenças provocadas pela ingestão de alimentos impróprios e que se manifestam por apatia, anorexia e paralisia ruminal. Sintomas adicionais podem eventualmente surgir. Dentre elas destacam-se a alcalose ruminal e a indigestão simples.

    São duas as causas de alcalose ruminal: a ingestão de uréia e de alimentos deteriorados, tais como silagens pútridas, água contaminada com fezes ou urina, subprodutos de cervejaria e restos industriais. Ambos os casos provocam aumento do pH ruminal detectável pelo exame do suco de rúmen.

    A uréia é usualmente administrada para bovinos como matéria prima para a síntese de proteína pelas bactérias ruminais. Na época seca do ano, quando as pastagens apresentam baixa qualidade, costuma-se fornecer uréia associada a volumosos, como a cana picada. Entretanto, a uréia deve ser administrada com cuidado e em doses progressivas para que o animal se acostume. Os animais intoxicados por uréia apresentam, além dos sintomas gerais descritos, sinais nervosos como tremores e até convulsão. A dose letal da uréia é a partir de 1g/kg.

    No caso da ingestão de alimentos deteriorados, também chamada de putrefação ruminal, o suco de rúmen apresenta, além do pH alcalino, cor marrom e odor putrefacto.

    Nas duas condições deve-se proceder à ruminotomia para a remoção do conteúdo indesejado. Pode-se administrar por via oral de 2 a 3 litros de vinagre comum para cada 100kg de peso vivo, 3 vezes ao dia. Outras opções incluem a fluidoterapia, os diuréticos como a furosemida (Lasix®) e a aplicação intravenosa de aminoácidos que estimulam a eliminação da uréia, como a arginina, a citrulina e a ornitina (Ornitagin®). A alimentação deve ser composta de carboidratos de fácil digestão, como o melaço. Na putrefação ruminal, pode-se administrar 10g de estreptomicina via oral.

    A indigestão simples ocorre quando há a morte ou inativação dos microorganismos do rúmen. Tal processo pode ser decorrente da ingestão de alimentos de péssima qualidade, como palhadas, nas carências minerais e na ingestão de doses maciças de antibióticos e sulfonamidas via oral. O quadro caracteriza-se por anorexia, apatia, atonia ruminal, borborigmas no rúmen ao invés de crepitação e conteúdo ruminal líquido e sem extratificacação. O suco ruminal pode tornar-se alcalino e não reagente à prova do azul de metileno. O exame microscópico deste material revela a ausência de protozoários vivos. O tratamento consiste em se corrigir a causa primária e proceder-se a transfusão de três litros de suco de rúmen sadio.

    Bibliografia

    HOUSE, K.J.; SMITH, B.P.; FECTEAU, G.; VANMETRE, D.C. Assessment of the ruminant digestive system. Veterinary Clinics of North America - Food Animal. v.8, n.2, p.189-202, 1992.

    HOUSE, K.J.; SMITH, B.P.; VANMETRE, D.C.; FECTEAU, G.; CRAYCHEE, T.; NEVES, J. Ancillary testes for assessment of the ruminant digestive system. Veterinary Clinics of North America - Food Animal. v.8, n.2, p.203-232, 1992.

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