Guia On Line de Clínica Buiátrica
Maurício Garcia, Alice M.M.P. Della Libera, Ivan R. Barros Filho

Afecções do sistema Genital Feminino

Introdução

Muitas são as afecções que acometem o sistema genital de fêmeas de ruminantes e em conseqüência muitos são os prejuízos econômicos oriundos destas alterações. O clínico deve estar apto a fazer o diagnóstico das diversas doenças que acometem as fêmeas ruminantes e impedem que estas gerem filhotes sadios em intervalos adequados.

Vaca em cio sendo saltada por outraVaca em final de trabalho de parto

Uma característica que particulariza o Sistema Genital Feminino (SGF) é o fato dele não se apresentar da mesma maneira em condições fisiológicas. Ao contrário do que ocorre nos outros sistemas, o SGF está sujeito a influências cíclicas de certos hormônios que modificam as características de seus componentes. O conhecimento prévio desta particularidade do SGF é fundamental para que o clínico possa interpretar adequadamente os achados de seu exame.

Em primeiro lugar, é necessário estabelecer se o SGF está em atividade ou em repouso (os caprinos e ovinos possuem o período de atividade no início do ano, mas as fêmeas bovinas ciclam o ano todo). A principal característica dos períodos de repouso sexual é a hipotrofia dos ovários com ausência de vesículas em sua superfície. Durante a gestação, também há repouso sexual (a duração da gestação nos bovinos é ao redor de 282 dias e nos pequenos ruminantes é de cerca de 148 dias).

Durante os períodos de atividade sexual, o ciclo estral vai provocar alterações no SGF que podem ser resumidas em duas situações diametralmente opostas: o estro (ou cio) e o diestro. As fases intermediárias, proestro (antes do estro) e metaestro (entre o estro e o diestro) caracterizam-se pela manifestação mesclada dos sinais típicos das outras duas fases. O quadro 1 resume o comportamento dos componentes do SGF no estro e no diestro :

Quadro 1 - Comportamento dos componentes do SGF no estro e no diestro

ItemEstroDiestro
Comportamento em relação ao machoreceptividaderepulsa
Aspecto da vulvacorrimento e edemasem alterações
Aspecto da vaginamuito úmida e avermelhadapouco úmida e rósea
Aspecto da cérvixmuito úmida, avermelhada e abertapouco úmida, rósea e fechada
Palpação do úterotensoflácido
Palpação dos ováriospresença de folículos (consistência flutuante)presença de corpo lúteo (consistência firme)

OBS.: As vacas apresentam farto corrimento vaginal claro, espesso e viscoso (semelhante à clara de ovo) no estro que pode tornar-se sanguinolento no metaestro. Já nos pequenos ruminantes, o corrimento vaginal durante o cio é escasso e esbranquiçado e nem sempre é detectável.

Abordagem na anamnese e no exame geral

Na anamnese dados sobre o desempenho reprodutivo devem ser pacientemente levantados: "O animal está ciclando? O animal está prenhe?" Além disso, outros dados são muito importantes tais como a idade do animal, o número de crias, a data do último parto, modificação no comportamento e ocorrências mórbidas (retenção de secundinas, abortamento e partos distócicos).

A condição reprodutiva do macho deve também ser questionada pois, muitas vezes, ele é o responsável pela infertilidade relatada.

Por fim, é necessário explorar o estado sanitário do rebanho, evidenciando-se o programa de combate à doenças infecciosas como a brucelose, campilobacteriose, tricomonose e leptospirose.

O exame geral do animal possui a mesma importância do exame dos órgãos genitais no estabelecimento de um diagnóstico de distúrbios de fertilidade, pois existe uma relação, mediada pelo hipotálamo, entre o SGF e as condições ambientais (luz, temperatura, clima) e orgânicas (stress, septicemias, carências nutricionais). Desta forma, animais mal nutridos ou altamente parasitados vão apresentar problemas reprodutivos, apesar de seu SGF estar íntegro.

Deve-se avaliar, também, a conformação do animal uma vez que existe uma tendência habitual de fêmeas com aspecto masculinizado apresentarem distúrbios reprodutivos. A presença de secreção láctea sem ter ocorrido parto é uma condição que também deve ser considerada.

Exame ginecológico

Inspeção: na inspeção da vulva deve-se pesquisar o tamanho, a simetria dos lábios vulvares, a posição, o fechamento vulvar e a presença de cicatrizes, aderências e inflamações. Avalia-se, também, a ocorrência de retenção de secundinas.

Inspeção da mucosa vaginalCorrimento vaginal detectável pela inspeção

Avalia-se, também, a presença e o aspecto do corrimento vaginal. Nos arredores da vulva e na cauda, verifica-se a existência de resíduos deste corrimento. Convém, entretanto, ter cautela ao se examinar vacas recém-paridas, pois elas apresentam um corrimento fisiológico chamado lóquio (loquimetria). Os lóquios nos dois primeiros dias são avermelhados ou tendendo a marrom com estrias de muco. Após quatro a cinco dias do parto, com a necrose das carúnculas, os lóquios se tornam mais espessos e com restos das carúnculas. Após 15 dias do parto, em condições normais, deve haver muito pouca ou nenhuma loquimetria. Deve-se inspecionar também a fossa ísqueo-retal e os ligamentos sacro-isquiáticos.

Durante a inspeção da vagina, deve-se pesquisar a cor da mucosa, as características da secreção (aspecto e quantidade) e a presença de eventuais alterações tais como traumatismos, vesículas, nódulos, cistos, fezes, urina e fístula reto-vaginal.

A inspeção das porções profundas da vagina e da cérvix só pode ser realizada com o auxílio de certos instrumentos e fontes luminosas. Nas vacas e búfalas podem-se usar espéculos apropriados, existindo uma grande variedade de modelos (tubular, "Polansky"). Nos pequenos ruminantes é necessário que tais espéculos sejam menores, existindo modelos tubulares e os chamados "bicos de pato". Em animais muito pequenos pode-se usar um afastador de narinas de uso humano. Durante o exame da cérvix deve-se dar atenção à coloração, à secreção e à abertura de seu orifício.

A inspeção da região abdominal é também importante, sobretudo nos pequenos ruminantes quando as dilatações uterinas costumam distender a parede desta região.

Existe, ainda, uma técnica de inspeção dos órgãos genitais internos através de laparotomia que vem sendo muito usada em cabras. Para tanto, o animal é contido em decúbito dorsal com a parte posterior mais elevada que a anterior. Faz-se, então, uma incisão de apenas 5 cm na parte posterior da linha média abdominal logo à frente do úbere por onde são exteriorizados os ovários e o útero para exame genital. Em vacas, pode-se realizar tal laparotomia usando-se, entretanto, um aparelho de endoscopia para a visualização das estruturas (laparoscopia).

Palpação: de forma geral o útero e os ovários só são acessíveis pelo exame físico direto através da palpação. Nos pequenos ruminantes, esse exame é realizado através da palpação da região abdominal quando se pesquisa a ocorrência de aumento de volume uterino bem como a consistência de seu conteúdo. Tal exame, todavia, é bem mais grosseiro que a palpação retal que se realiza nas vacas. Nestes animais pode-se evidenciar, além das características uterinas já descritas, a posição do útero, o tônus de sua parede, a simetria dos cornos, a motilidade dentro da cavidade abdominal e até a presença de cotilédones da gestação, bem como o próprio feto. Na palpação dos ovários pode-se obter o seu tamanho e a ocorrência de estruturas em sua superfície que, dependendo de sua consistência, podem ser consideradas como folículo ovariano, corpo lúteo ou cistos patológicos.

Inspeção através de espéculo vaginalPalpação retal para avaliar o SGF

Exames complementares

Radiografia: aplica-se sobretudo nos pequenos animais quando pode ser melhor analisada a conformação do útero bem como a existência de partes fetais e sua condição, a ocorrência de cistos ovarianos, etc.

Ultra-som: é usado para a detecção de aumento de volume uterino e avaliação de ovários. Por isso é comum encontrar-se a utilização de aparelhos de ultrassonografia no diagnóstico da gestação.

Biópsia uterina: valendo-se de instrumenal apropriado pode-se obter fragmentos da mucosa uterina para exame histopatológico.

Citologia vaginal: raspados de mucosa vaginal podem ser corados por técnicas como o papa nicolau e sua visualização no microscópio pode fornecer subsídios ao diagnóstico.

Microbiologia: pode-se colher uma porção de muco cervical, usando-se swabs, e submetê-la à análise microbiológica para a caracterização do microorganismo e sua sensibilidade à antibióticos (antibiograma).

Dosagens hormonais: alguns laboratórios estão equipados para realizar a dosagem de hormônios (normalmente são técnicas sofisticadas). Existem, também, kits baseados no princípio imunoenzimático (ELISA), para a dosagem no campo de hormônios no sangue e até no leite.

Hemograma: as alterações na série branca podem indicar processos infecciosos da esfera genital. Nos ruminantes, todavia, mesmo extensas infecções uterinas costumam ser circunscritas e não é comum a presença de neutrofilia.

Abordagem propedêutica

O principal sinal de disfunção genital que leva um proprietário a procurar um auxílio veterinário é a infertilidade, ou mais propriamente, a ausência de parição. É necessário, pois, explorar cuidadosamente a questão e verificar em qual das 3 circunstâncias o animal se encontra:

1 - o animal não cicla, não apresentando cio (aciclia)

2 - o animal cicla mas não emprenha, ocorrendo a repetição do cio

3 - o animal emprenha, mas a gestação não chega a termo (deve-se ter cautela nestes casos pois não é rara a ocorrência de pseudo-gestação em cabras)

Além destas considerações, os ruminantes podem apresentar alterações da vulva e vagina.

ACICLIA

Os ovários produzem a cada ciclo estral o gameta feminino sob o efeito de hormônios liberados pela hipófise, pelo próprio ovário e pelo útero. Doenças do ovário são, desta forma, comumente acompanhadas por aciclia. Deve-se ter em conta a idade do animal para se assegurar que a puberdade já tenha sido atingida. Além disso, é necessário lembrar que os bovinos são poliéstricos anuais, ou seja, apresentam vários ciclos durante todo o ano, mas os caprinos e ovinos são poliéstricos sasonais, ou seja, ciclam várias vezes mas somente durante uma estação do ano que, em nosso meio, corresponde aproximadamente ao verão.

As causas mais comuns de doenças ovarianas podem ser agrupadas naquelas caracterizadas por pequeno ou nenhum desenvolvimento ovariano (aplasia, hipoplasia e distrofia ovariana) e naquelas caracterizadas pela presença de cistos ovarianos (foliculares e luteínicos). A diferenciação pode ser feita por uma palpação retal avaliando-se a consistência, tamanho e superfície dos ovários. A ultra-sonografia e as dosagens hormonais podem ser úteis nestes casos.

Outras causas de doenças ovarianas são a sua inflamação (ooforite), aderências e tumores. O corpo lúteo persistente é, também, uma doença ovarina que provoca aciclia mas sua sede está no útero nos casos em que a inflamação do endométrio (endometrite) impede a liberação de prostaglandinas necessárias à regressão do corpo lúteo.

REPETIÇÃO DE CIO

A inflamação do endométrio (endometrite) leve pode impedir a nidação do embrião, provocando a repetição do cio. Assim, quadros leves de endometrite caracterizam-se por repetição do cio e quadros severos de endometrite caracterizam-se por aciclia.

Distúrbios na ovulação (ovulação retardada, atresia do folículo e folículo persistente) também podem provocar repetição do cio. Seu diagnóstico depende de uma criteriosa palpação seqüencial dos ovários após o cio.

INTERRUPÇÃO DA GESTAÇÃO

O abortamento (aborto é o produto do abortamento) é a causa mais comum de interrupção da gestação. O útero gravídico pode ser infectado por vários germes específicos que provocam o abortamento. Nos bovinos, esses germes podem ser bactérias (Brucella abortus, Campylobacter fetus, Listeria monocytogenes, Salmonella spp, Leptospira interrogans), protozoários (Trichomonas fetus, Nocardia spp), vírus (IBR-IPV) e fungos (Aspergillus spp). Nos pequenos ruminantes, a causa mais frequente de abortamento infeccioso é a Clamydia spp.

AbortamentoParto prematuro

O abortamento pode, também, ocorrer por causas não infecciosas como carências vitamínicas, anemias, processos febris, traumatismos (comum em pequenos ruminantes), "stress", intoxicações e certos medicamentos (corticóides, ocitocina, estrógenos, xilasina, prostaglandinas, etc.).

Os vermífugos, via de regra, não provocam abortamento e a frequente constatação deste evento após certas vermifugações provavelmente é provocada por traumatismos ocorridos devido à manipulação inabilidosa dos animais. Biotoxinas, como a zearalenona, produzida pelo Fusarium spp, além de causar sinais clínicos relacionados com hiperestrogenismo, podem causar também causar abortamentos.

A brucelose é o agente mais comum nos abortamentos de vacas. Ocorre no final da gestação, entre o 6º e 8º mês, causando retenção de secundinas e endometrite. Aqueles causados por campilobacteriose e leptospirose, ocorrem por volta do último trimestre de gestação da vaca. O Trichomonas foetus causa abortamentos precoces, acontecendo entre o 1º e 5º mês de gestação.

ALTERAÇÕES DA VULVA E VAGINA

A vulva e a vagina podem mostrar sinais de inflamção, caracterizando os quadros de vulvite, vestibulite e vaginite. São processos inflamatórios localizados respectivamente na região vulvar, vestíbulo vaginal, vagina e cérvix. São fatores predisponentes problemas na hora do parto, abortamentos, retenções placentárias, distocias, fetotomias, manobras obstétricas, touros e sêmen contaminados, inseminações inadequadas. Os agentes infecciosos mais comumente observados nestes processos, são os Actinomyces pyogenes, Streptococcus spp, Staphylococcus spp, herpesvírus (IBR-IPV), Trichomonas foetus e Campylobacter spp.

Em alguns casos aparece corrimento vulvar, hiperemia das regiões afetadas e hiperalgesia. O animal pode se recusar a ser coberto ou inseminado e sente dor quando se faz a palpação genital via reto. Em casos mais severos pode ocorrer disúria e o animal permanece com a cauda elevada. Ao exame vaginal, podem haver vesículas de conteúdo variável e presença de secreções variando de seromucosa a muco purulenta. O tratamento deve ser feito com a aplicação tópica de soluções antissépticas suaves.

É comum, ainda, a ocorrência de mal formações da vagina e vulva em caprinos hermafroditas ou, mais propriamente, pseudo-hermafroditas, posto que as alterações destes animais são apenas fenotípicas e não possuem gônadas dos dois sexos.

A vulva e vagina podem, também, ser sede de processos tumorais malignos (carcinoma). Não existe tratamento. Outras doenças, menos frequentes, da vagina são os tabiques vaginais, os cistos de retenção e as coleções vaginais (pneumovagina e urovagina). Em bovinos pode ocorrer uma doença de base genética, chamada free-martinismo, em que os animais apresentam alterações morfofuncionais do sistema genital. Estes animais possuem vaginas curtas, de 7,5 a 10 cm (o normal de de 12,5 a 17,5 cm).

Doenças

Brucelose
É uma doença infecto-contagiosa que geralmente provoca abortamentos, causada por várias espécies da bactéria do gênero Brucella. A B. abortus infecta mais bovinos, B. melitensis infecta mais caprinos e a B. ovis mais os ovinos. Trata-se de uma zoonose. Os restos placentários, abortamentos e lóquios são as principais fontes de infecção, inclusive para o homem. Os bovinos só são suceptíveis à doença após atingirem a maturidade sexual.

Os abortamentos que a doença costuma causar em bovinos, ocorrem usualmente entre o 7o. e 9o. mês de gestação, geralmente acompanhados de retenção de secundinas e endometrite. Todavia, tais abortamentos não ocorrem em todas as gestações. As vacas brucélicas abortam, em média, duas vezes até desenvolverem imunidade uterina que protege a placenta evitando o abortamento, mas continuam infectadas e transmitindo a doença. Nos machos pode ocorrer epididimite, sintoma muito comum em ovinos.

O diagnóstico é feito por sorologia. Para a B. abortus, usa-se a soro-aglutinação rápida em placa usando-se o antígeno acidificado tamponado, conhecido também como rosa bengala. Resultados positivos podem ser confirmados por outras provas como o 2-Mercaptoetanol. Animais positivos devem ser abatidos. Para B. ovis deve ser feita a prova de imunodifusão em gel.

A prevenção da brucelose bovina deve ser feita através da vacinação de fêmeas de 3 a 8 meses de idade. Deve-se ter cuidado ao manipular a vacina, pois é infectante e patogênica para o homem. O controle da doença é objeto de programa nacional de controle da doença elaborado pelo Ministério da Agricultura, em conjunto com o controle da tuberculose.

Carcinoma epidermóide
Os vários tipos de carcinomas ocorrem em todas as espécies domésticas, sendo o tumor ocular (pálpebras e globo ocular) mais comum do bovino e o mais comum da orelha dos ovinos. Nos bovinos a lesão inicial pode ser na terceira pálpebra, na córnea ou numa das pálpebras. Também ocorrem na vulva de vacas com maior incidência nas vacas despigmentadas.Os tumores crescem rapidamente e tem grande capacidade invasiva, freqüentemente dando metásteses nos linfonodos regionais. O tratamento cirúrgico pode ser adotado na fase inicial.

Cistos ovarianos
São definidos como alterações em que há persistência de um folículo anovulatório, maior que 2,5 cm , por um período de tempo maior que 10 dias, acompanhados por ciclo estral irregular e ausência do corpo lúteo. Conforme o grau de luteinização das camadas celulares internas do cisto, tem-se duas formas patológicas: cistos foliculares e cistos lúteos (cistos foliculares luteinizados ou luteínicos). Além de estarem associados com fatores genéticos hereditários, estão relacionados com estresse, nutrição, desequilíbrios hormonais, fatores climáticos e infecções uterinas. A ninfomania é a queixa mais freqüente, apesar de não ser o sintoma mais comum. Geralmente a ninfomania é mais facilmente observada pelo responsável do animal. O anestro é o sintoma mais comum. O exame retal, revela cistos foliculares anavulatórios, maiores que 2,5 cm, podendo chegar a 10 cm de diametro. Infelizmente a palpação retal não permite diagnóstico acurado em grande número de casos. Podem ser feitas dosagens de progesterona no plasma e no leite. Uma baixa concentração de progesterona plasmática, sugere ausência de tecido lúteo e presença de cisto folicular. A presença de concentrações médias ou altas do esteróide, indica a presença de tecido lúteo. O teste, porém, não é totalmente eficaz. A utilização da ultrassonografia, é de grande valia para o diagnóstico.

Quando for feito o tratamento de cistos ovarianos, deve-se considerar o potencial hereditário desta doenças. O estro deve surgir de 18 a 23 dias após e o tratamento com GnRh 100µg IM ou IV (Cystorelin®), o qual tem sucesso para 70 a 80% dos casos. As prostaglandinas (Ciosin®, Lutalyse®) só funcionam em cistos lúteos e o estro surge entre 2 a 5 dias após. Os cistos foliculares só respondem às prostaglandinas após a luteinização.

Endometrite
Trata-se de um dos maiores problemas na criação de bovinos, especialmente nas criações de leite. O termo "endometrite" define a inflamação da mucosa do endométrio. Por "metrite" entende-se a inflamação também da camada muscular interna. As "perimetrites" envolvem todo o orgão, inclusive a serosa. Finalmente, as "parametrites" envolvem todo o orgão e determinam aderências com outras estruturas, como o ligamento largo do útero. Os agentes infecciosos envolvidos são Escherichia coli, Actininomyces pyogenes, Staphylococcus spp, Streptococcus spp, Pseudomonas aeruginosa, Proteus spp, Micoplasma spp e Ureaplasma spp.

A maioria dos casos ocorrem no periodo puerperal, devido a qualquer evento que altere a involução uterina normal. Na maioria dos casos, a ocorrência de endometrite está associada a falta de higiene, partos distócicos, manobras obstétricas, retenção de secundinas, atonia uterina, má condição nutricional ou de saúde, abortamento, nascimento de gêmeos, parto prematuro ou sêmen contaminado.

Os quadros agudos podem causar comprometimento do estado geral, causando anorexia, febre, aumento das freqüências cardíaca e respiratória, diminuição dos movimentos ruminais, desidratação e apatia. Se não houver septicemia os sintomas passam a ser restritos ao aparelho genital. Observa-se com freqüência secreção vaginal muco purulenta, sinais de corrimento na região perineal e membros pélvicos. À vaginoscopia, pode-se detectar presença deste conteúdo no cérvix e porções craniais da vagina. Placenta e restos placentários podem ser observados em casos de retenções. À palpação retal , o útero está atônico e com conteúdo.

Os quadros crônicos são classificados em 4 graus sucessivos dos chamados "catarros genitais", conforme a gravidade. No catarro genital de 1º grau (CG 1), freqüentemente há prolapso de primeiro anel cervical e secreção mucosa aumentada, hiperemia da porção vaginal do cérvix. No catarro genital de 2º grau (CG 2), em grande número de casos, há vaginite e vestibulite. A vaca pode ciclar normalmente mas retorna ao cio após inseminações. A secreção cervical aumenta, podendo haver flocos de pús e hiperemia. Nos casos de C.G leve (1 e 2) o processo pode regredir expontaneamente. No catarro genital de 3º grau (CG 3) os achados são semelhantes ao CG 2, mas neste caso a secreção, é purulenta. O catarro genital de 4º grau (CG 4) é caracterizado pela ocorrência de piometra. Neste caso, a secreção é francamente purulenta. O útero pode estar distendido bilateralmente e pode haver dúvidas, com a gestação. O corpo lúteo pode estar presente no ovário e se tornar persistente, não ocorrendo sua involução. Se o cérvix estiver fechado , o diagnóstico se torna mais difícil. Em se tratando de catarros genitais de 3º e 4º graus, o prognóstico é de resevado a mal para a função reprodutiva.


Passagem de pipeta para aplicação de antibióticos
  O tratamento das endometrites deve ser feito nos casos de bom prognóstico (CG1 e CG2). Deve ser feito através da infusão de antibióticos via intra-uterina. Alguns clínicos recomendam o emprego de "lavagens" através da aplicação de grandes volumes de soluções antibióticas e/ou antissépticas. Todavia, não se recomenda tal procedimento, posto que ele agrava a dilatação e atonia do útero por não ser possível retirar todo o volume que foi aplicado. O ideal consiste na aplicação de 2 a 5 g de tetraciclina dissolvidas em pequenos volumes (até 100 mL). O tratamento pode se diário ou em dias alternados, até a resolução do processo.

A tetraciclina é o antibiótico mais comumente recomendado no tratamento de infecções do útero. O mecanismo de ação deste fármaco é semelhantes ao dos aminoglicosídeos, mas atua em ambiente anaeróbico. Os aminoglicosídeos (Ex. gentamicina) são ineficientes pois o ambiente do útero é anaeróbico e não há ação desta classe de medicamento. As sulfas tem seu efeito prejudicado devido à grande quantidade de restos celulares no puerpério. As penicilinas não são eficientes no período imediatamente pós parto, pois nesta fase comumente há presença de microorganismos produtores de penicilinases, entretanto após 30 a 35 dias pós parto elas são eficientes pois predominam os A. pyogenes e gram negativos anaeróbicos. A penicilina G procaína 1.000.000 UI- intrauterina tem efeito terapeutico por 30 h. Casos rebeldes, porém, necessitam de antibiograma prévio antes de se optar pelo antibiótico.

O uso de protaglandinas (Ciosin®, Lutalyse®) parece ter efeitos positivos no tratamento das endometrites. A prostaglandina F2-alfa induz a luteólise permitindo que a progesterona circulante diminua. Isto tem efeito benéfico na defesa uterina, pois a progesterona inibe as defesas naturais do útero e inibe a motilidade do orgão. Com a luteólise, há aumento de estrógenos, facilitando mecanismos de defesa do útero. As prostaglandinas estimulam a fagocitose pelos leucócitos uterinos.

Leptospirose
A leptospirose é uma doença infecto-contagiosa causada por uma bactéria, Leptospira interrogans, com vários sorovares, uma zoonose, possui diversas formas clínicas e acomete todos os mamíferos domésticos.

Animais portadores e convalescentes, silvestres e domésticos eliminam a leptospira pela urina e funcionam como reservatórios da doença (o rato geralmente, é reservatório permanente) contaminando águas de fluxo lento (poças, lagoas, etc.) e a partir da urina destes animais.

A sintomatologia vai depender do sorovar envolvido, em ruminantes, geralmente há uma discreta manifestação, podendo passar desapercebida, ou se manifestar por abortamentos (abortamento leptospiral é mais comum em bovinos e mais raro em caprinos e ovinos) por volta do quinto mês de gestação (sempre variando com a fase da gestação e o agente infeccioso). Bezerros fracos ou mortos podem ser paridos à termo. Bezerros e cordeiros podem apresentar síndrome hemolítica com maior freqüência que animais adultos e nestes casos o quadro clínico é mais evidente podendo apresentar icterícia, hemoglobinúria, hemorragias petequiais, anemia, febre e agalactia (fêmeas em lactação). Casos mais graves são raros em ruminantes e podem apresentar nefrite intersticial, insuficiência hepática e uremia.

O diagnóstico pode ser feito através da sorologia.

O tratamento para infecção sistêmica é preferencialmente a base de estreptomicina 12 mg/kg PV, duas vezes ao dia, por três dias, IM ou diidroestreptomicina, 25 mg/kg PV, dose única em todo o rebanho para combater a leptospirúria de animais portadores em caso de surto (Estreptomicina®, Pentabiótico veterinário®, Pentabiótico reforçado®, Pentacilin®, Agrovet®). Quadros hemolíticos podem requerer transfusão concomitante (ver procedimento em verminose), fluidoterapia para manter a função renal. Tecidos abortados devem ser manipulados com cuidado por serem contaminantes (ao homem, outros animais, água, etc.). Existem esquemas de vacinação indicados mas deve-se observar o sorovar predominante da região e estabelecer as limitações da vacina. É importante combater coleções de água que tendam a estagnar por poderem servir de fonte de infecção.

Retenção de placenta

Vaca com placenta retida
  Também conhecida como retenção de secundinas ou anexos fetais, é uma afecção que acomente primariamente vacas, apesar de poder ocorrer com menor freqüência em búfalas, ovelhas e cabras. Considera-se retenção de placenta quando ela não for eliminada após 12 horas do parto. Alguns animais ingerem as secundinas fetais e a observação de sua eliminação pode passar desapercebida.

A retenção placentária usualmente acompanha os casos de abortamento e parto prematuro. Fatores nutricionais também podem provocar a retenção, tais como a deficiência de selênio/vitamina E, vitamina A e desnutrições de maneira geral. A placenta exposta na vulva por períodos superiores aos considerados fisiológicos (12 horas) é o sinal mais freqüente.

Em alguns casos ela pode ficar totalmente retida no interior do útero. Em outras situações, parte da placenta permanece no interior da vagina a qual aparece, quando o animal se deita, projetando-se pela abertura vulvar. Não raramente, a placenta acaba por ser eliminada inteira ou em pequenos pedaços após 10 ou 13 dias, sem outros sintomas. Todavia, freqüentemente há endometrite associada.

Nos casos de retenção de secundinas, esta não deve ser tracionada, para que se evite lesões do endométrio. Todavia, quando a placenta sai com uma tração bastante delicada, a retirada pode ter efeito benéfico. Deve-se fazer limpeza da região vulvar com antissépticos suaves e realizar infusões com 2 a 5 g de tetraciclina (Talcin®) diariamente até a sua saída. Pode-se instuir tratamento sistêmico, com o mesmo antibiótico na dose de 5 a 10 mg/kg a cada 12 horas por via intravenosa.

Tricomonose
É uma doença infecto-contagiosa dos bovinos, determinada por um protozoário, o Trichomonas foetus. Suas principais manifestações ocorrem nas fêmeas e caracterizam-se por endometrite, piometra, cervicite, vaginite, irregularidades do cio, abortamento na primeira metade da gestação (principalmente dois primeiros meses), esterilidade temporária e morte do feto.

É uma doença sexualmente transmissível pois o microorganismo coloniza o sistema genital tanto de fêmeas quanto de machos. Nas fêmeas a infestação dificilmente ultrapassa 6 meses e os abortamentos são seguidos de um período variável de imunidade à reinfestação. Por isso, as fêmeas infestadas que não foram descartadas, devem ficar em repouso sexual por, no mínimo 3 meses. Machos adultos apresentam infestação permanente, sem sinais aparentes.

O diagnóstico é feito principalmente pela identificação laboratorial do protozoário em material coletado dos genitais (muco cervicovaginal, exsudato uterino, líquidos placentários, lavados prepuciais) e conteúdo abomasal de fetos abortados. O lavado prepucial deve ser feito, preferencialmente após um repouso sexual de uma semana para que haja um maior acúmulo de protozoários nas criptas prepuciais e facilite a observação dos mesmos. Usar solução salina a 0,85% à 37*C (cuidado para não contaminar com urina), fazer vigorosa massagem prepucial, adicionar meio de transporte e cultivo, manter em temperatura ambiente e examinar ao microscópio entre lâmina e lamínula.

O tratamento é a base de metronidazole (Flagil®), 75 mg/kg IV de 12 em 12 horas, fazer 3 aplicações.

Bibliografia

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