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Guia On Line de Clínica Buiátrica Maurício Garcia, Alice M.M.P. Della Libera, Ivan R. Barros Filho |
| Afecções do sistema genital masculino |
Introdução
Em várias ocasiões, veterinários são requisitados para avaliação de machos que serão utilizados em programas de reprodução. O clínico deve estar preparado para fazer o exame adequadamente, observando todas as estruturas do trato genital masculino, não se esquecendo que além de um sêmen de boa qualidade, o animal deve estar apto a procurar a fêmea, montar e copular.
Considera-se que antes de qualquer especulação sobre a possibilidade de um macho ser utilizado como reprodutor, deve-se ter certeza que o animal está livre de doenças como a leucose, brucelose, tuberculose, leptospirose, campilobacteriose e tricomonose. Pode parecer óbvio este tipo de comentário, mas tem-se observado com certa freqüência a negligência com a saúde dos animais como um todo. A introdução de reprodutores contaminados no rebanho certamente resultará em prejuízos para o criador.
Antes de se considerar um macho como problemático convém considerar alguns aspectos particulares. A puberdade é a época em que os orgãos sexuais se desenvolvem, o instinto sexual torna-se mais intenso e a reprodução é possível. No bovino europeu, ela se manifesta com um pouco menos de um ano de idade, dependendo das condições de nutrição. Assim, o sêmen colhido de touros jovens pode ter uma baixa concentração de espermatozóides, situação esta que pode se modificar positivamente em alguns meses. Em búfalos, a espermatogênese inicia-se entre 12 a 15 meses, mas a ejaculação de espermatozóides viáveis, ocorre por volta de 24 meses. No carneiro e no bode entre 3 a 6 meses. Deve-se considerar, ainda, que a idade em que os animais entram em puberdade, depende da raça, condições de saúde e manejo.
O macho procura a fêmea, quando esta entra em estro. Ele é atraído por estímulos olfatórios, através de ferormônios. Estímulos visuais e auditivos também atraem o macho. O touro cheira a região perineal da fêmea e assume uma postura conhecida como reflexo de Flehmen. Ele fica sexualmente excitado, há emissão de secreções das glândulas acessórias e ele monta a fêmea. Um touro mantido em condições de pastagens pode realizar mais de 35 coberturas em um período de 24 horas. Os zebuínos preferem cobrir em horários mais frescos do dia e à noite. Ocorrem variações sazonais na libido principalmente em carneiros, bodes e búfalos.
Abordagem na anamnese e no exame geral
Os machos devem estar aptos a fertilizar as fêmeas da propriedade rural. Assim, vários aspectos devem ser observados durante o exame do Sistema Genital Masculino (SGM) para que seja obtido esse resultado final. Estes aspectos incluem tanto a integridade do trato genital como a condição geral do animal.
Durante a anamnese devem ser inqueridos os antecedentes do animal: Já possui crias? Como elas são? Como é feita o cobertura? Há libido? Há a exteriorização do pênis? O animal salta? Todas informações são importantes, inclusive aquelas não relacionadas diretamente com o SGM.
A saúde geral do animal deve, ainda, estar preservada. Animais com parasitas ou carências minerais, por exemplo, têm sua capacidade reprodutiva comprometida. O animal deve, ainda, ser desprovido de defeitos genéticos como, por exemplo, o prognatismo. Em caprinos, animais chifrudos são usados preferencialmente como reprodutores, já que os mochos podem produzir descendentes com um tipo de alteração genética conhecida como pseudo-hemafroditismo. A capacidade do animal cobrir também deve ser avaliada. Lesões locomotoras usualmente perturbam a performace reprodutiva dos machos, principalmente quando localizadas nos membros posteriores.
Exame andrológico
A contenção adequada do animal é muito importante para se realizar o exame andrológico, sobretudo em touros. Inicia-se o exame pela inspeção (assimetria, coloração, pruridro) e palpação (temperatura, consistência) do escroto. O testículo e o epidídimo também podem ser avaliados pela inspeção (assimetria, forma, posição, tamanho, volume) e pela palpação (temperatura, consistência, mobilidade, sensibilidade, neoformações). A circunferência escrotal deve ser medida pois está diretamente relacionada com a produção de espermatozóides. Esta circunferência varia conforme a espécie e a idade. Em bovinos taurinos (Bos taurus) de maneira geral ela deve ser superior a 30 cm.
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| Reflexo de Flehmen | Mensuração do perímetro escrotal |
Da mesma forma, o exame do pênis pode ser realizado pela palpação e pela inspeção. Todavia, para a realização da inspeção é necessário proceder-se à exteriorização do pênis. Em pequenos ruminantes, esta exteriorização pode ser realizada manualmente, contendo-se o animal em decúbito dorsal e flexionando-se seus membros posteriores em direção cranial. Já em bovinos, esta exteriorização é mais difícil e pode ser realizada mediante técnica anestésica específica. Uma alternativa, porém, é examinar o pênis do animal durante a excitação sexual, quando com o auxílio de uma toalha agarra-se firmemente o pênis e se faz o exame. Os eletroejaculadores podem também ser empregados para a exteriorização do pênis.
O prepúcio deve ser examinado através da inspeção e palpação (lesões, estenose, edema).
Através da palpação retal, podem ser avaliadas as glândulas acessórias do SGM (vesículas seminais, ampolas do ducto deferente, próstata, glândulas bulbouretrais) quanto a sua consitência, mobilidade, temperatura, tamanho, forma e sensibilidade. A palpação dos linfonodos íleo-femurais pode, ainda, revelar o comprometimento de estruturas desta região.
Outro aspecto importante a ser observado é o comportamento do animal ao acasalamento. Muitas alterações tornam-se detectáveis apenas neste momento, como, por exemplo, sangramentos penianos ou mesmo a falta de libido.
Exames complementares
O exame do sêmem pode revelar problemas de fertilidade do animal e exames sorológicos podem detectar infecções relacionadas com o SGM, tal como a brucelose. Pode ainda ser empregada a ultrassonografia para exame das glândulas anexas e a biópsia testicular, para se avaliar alterações como degeneração, fibrose e calcificação.
Abordagem propedêutica
A função primordial de um macho na atividade pecuária é realizar a cobertura de fêmeas. Assim, as enfermidades do SGM são separadas, basicamente, em duas situações sintomatológicas distintas. Pode haver a situação em que o animal não copula (Impotentia coeundi) e outra situação em que copula, porém não fertiliza (Impotentia generandi).
IMPOTENTIA COEUNDI
Ocorre, basicamente, por diminuição da libido ou por alterações do pênis.
A ausência ou a diminuição da libido pode acontecer devido a uma série de fatores. O ambiente pode interferir, tal como quando machos são transferidos de propriedades e estranham o novo local, levando alguns dias até que se acostume as novas condições. Excesso ou falta de alimentação também podem comprometer o desempenho reprodutivo. Além disso, salientam-se como fatores que provocam a diminuição da libido o excesso de trabalho sexual, a predileção por algumas fêmeas, fatores genéticos, doenças intercorrentes e distúrbios hormonais.A alteração de libido é facilmente observada, pois o macho não cobre as fêmeas ou há muita demora na sua realização. Em casos de alteração da libido, deve-se permitir ao animal um repouso sexual de dois meses, e uma reavaliação do caso. Tratamentos com testosterona , LH e HCG podem ser utilizados com bastante critério.
![]() Caprino com hipospadia. Notar a fenda uretral. |
Alterações morfológicas do pênis de origem genética (hipoplasia, pênis duplo, pênis em "sacarrolha", persitência do frênulo) podem ocorrer, mas são raras. A hipospadia (abertura ventral da uretra peniana), porém, é um achado freqüente em caprinos pseudo-hermafroditas. As afecções adquiridas do pênis são mais freqüentes, tal como a ruptura do corpo cavernoso, a balanopostite e a papilomatose peniana. Deve-se ressaltar, ainda, que as afecções envolvendo massas musculares, estruturas ósseas e articulares impedem ou dificultam a locomoção até a fêmea e a monta. Lesões em membros pélvicos e coluna vertebral são particularmente mais prejudiciais a esta atividade. |
IMPOTENTIA GENERANDI
As alterações testiculares usualmente estão envolvidas nos casos de Impotentia generandi. As alterações do testículo podem causar alterações em seu tamanho, consistência e sinais inflamatórios. As diminuições de tamanho sem sinais inflamatórios (hipoplasia) podem ser uni ou bilaterais. Estão relacionadas com deficiência de zinco, insuficiência hormonal e distúrbios vasculares. O exame do sêmen pode revelar azoospermia ou baixa concentração de espermatozóides. Testículos flácidos podem aparecer nos quadros de degeneração testicular. Sinais de inflamação no testículo acompanham os quadros de orquite e epididimite.
Doenças
Balanopostite
Trata-se da inflamação do pênis (balano) e prepúcio (postite). Um fator predisponente para este tipo de afecção é o prepúcio mais alongado que é observado com maior freqüência em zebuínos. Com o traumatismo bactérias se alojam causando infecção do local. Há formação de feridas e escaras, hiperemia, aumento da temperatura inicial e diminuição quando da presença de tecidos necrosados. Pode haver adererências, impedindo a eliminação adequada da urina. As lesões prepuciais podem provocar fimose. Na fimose não há possibilidade de exposição da glande por estreitamento do ósteo prepucial. Difere, assim, da parafimose, onde há exposição permanente da glande. Com a inflamação e congestão da glande, esta fica constricta pelo prepúcio, podendo haver necrose.A balanopostite deve ser tratada com o uso de antibióticos sistêmicos e locais. A limpeza diária com soluções antissépticas suaves é uma prática bastante desejável. A bacitracina e penicilina na forma de pomadas podem ser utilizadas no local da lesão. A opção cirúrgica deve ser considerada em casos de prepúcios muito longos ou eversão de mucosa. Nos casos de fimose e parafimose o tratamento é cirúrgico. Na parafimose é importante manter o pênis protegido e umidificado com antibíótico oleoso. A região deve ser constantemente higienizada.
Degeneração testicular
É uma doença testicular que comumente causa infertilidade em machos. Possue etiologias múltiplas. Pode estar associada com alterações térmicas, criptorquidismo, elevações de temperatura ambiental, edema de bolsa escrotal, hérnia escrotal, dermatites da bolsa escrotal, orquites, deficiência de vitamina A e obstruções epididimárias levando a um aumento de pressão dos túbulos seminíferos. O diagnóstico desta condição pode ser feito pela palpação dos testículos observando-se perda da elasticidade e turgidez dessas estruturas. Para uma maior precisão pode-se usar o tonômetro. O exame do sêmen mostra azoospermia, oligospermia e uma série de alterações morfológicas dos espermatozóides. Em casos crônicos há endurecimento do parênquima testicular e a radiografia pode revelar áreas de fibrose e calcificação. Desde que as espermatogônias e as células de Leydig não sejam comprometidas pode haver recuperação após algumas semanas. O tratamento consiste em se retirar a causa primária.
Epididimite
A epididimite é uma doença comum em carneiros e ocorre principalmente pela infecção por Brucella ovis. Outros agentes, como o Actinobacillus seminis, também estão relatados como causadores de epididimite em ovinos. Acredita-se que via venérea seja a principal forma de transmissão da doença, que acarreta sérios prejuízos por prejudicar a fertilidade de carneiros e por contaminar as ovelhas.
A epididimite pode se manifestar de forma aguda, com febre, prostração e inflamação local. O animal assume posição anti-álgica, claudicando e afastando os membros posteriores. Na forma crônica da doença há aumento de volume de consistência firme do epidídimo, sem haver sinais sistêmicos. O diagnóstico pode ser confirmado por testes sorológicos, mas apenas poucos laboratórios do Brasil estão capacitados a realizá-los.
Apesar de alguns antibióticos atuarem na infecção pela B. ovis (diidroestreptomicina - Agrovet®, Pentabiótico®, Penstrep® - 25 mg/kg IM bid/7d), não se recomenda o tratamento da doença.
Orquite
A inflamação do testículo é chamada de "orquite". O termo "epididimite" define uma inflamação específica do epidídimo. A inflamação é causada principalmente por traumatismo e agentes infecciosas. Nos bovinos, as causas infecciosas mais comuns são a Brucella abortus, Mycobacterium tuberculosis, Actinomyces pyogenes e IBR/IBV.
Geralmente a infecção se inicia por via hematógena e, em alguns casos, através de feridas nos testículos. Os sinais clínicos são aumento de temperatura, sensibilidade à palpação e edema na fase aguda. Podem também ser notadas aderências com estruturas anexas e alteração da forma e consistência. O aumento de temperatura e a congestão interferem com a circulação, levando à isquemia e degeneração testicular. A degeneração ocorre rapidamente porém, a recuperação, quando ocorre, é bastante lenta. O sêmen pode apresentar diminuição do número e motilidade dos espermatozóides. Aumenta o número de alterações morfológicas dos espermatozóides e podem ser detectados polimorfonucleares. O exame microbiológico do ejaculado pode identificar o microorganismo causador.
Alguns casos podem apresentar envolvimento da vesícula seminal. O animal pode relutar em andar, recusa a cobertura e assume um andar tenso, principalmente nos casos de peritonite associada. À palpação retal, em casos agudos, não se nota muita diferença nas lobulações da glândula. Em casos crônicos, porém, as glândulas aumentam e a assumem consistência mais dura, devido à fibrose. A ultrassonografia é usada com sucesso no diagnóstico de alterações da vesícula seminal.
O tratamento deve ser feito até o desaparecimento das células inflamatórias do sêmen. Em casos de orquite unilateral, pode-se optar por uma orquiectomia unilateral. A tetraciclina (Talcin®, Terramicina®) na dose de 10 mg/kg é um dos antibióticos de escolha. Em infecções da vesícula seminal, o tratamento deve ser feito por 2 a 4 semanas na dependência da sensibilidade do agente. Indica-se eritromicina na dose de 2,5 mg/kg IM.
Bibliografia
BRUNER, K.A.; VAN CAMP, S.D. Assessment of the reproductive system of male ruminant. The Veterinary Clinics of North America, v.8, n.2, p.331-344, 1992.