Guia On Line de Clínica Buiátrica
Maurício Garcia, Alice M.M.P. Della Libera, Ivan R. Barros Filho

Afecções da glândula mamária

Introdução

A glândula mamária tem por função original produzir alimento para o filhote até que este esteja apto a se alimentar como um adulto. Para tal, a natureza exige uma produção equivalente às necessidades do filhote (em torno de 10% do seu peso por dia, na primeira fase de sua vida). Portanto, a maioria das vacas poderia produzir apenas de 4 a 6 litros por dia, considerando bezerros que venham a nascer com 40 a 60 kg. Com o interesse humano na utilização do leite, mais e mais foi feito para aumentar a produção da glândula mamária. Esse interesse fez com que a glândula fosse exposta a muitos de fatores de agressão contínua, tais como ordenha imprópria (mãos sujas, máquinas mal calibradas), acúmulo de animais em estabulação e falta de higiene ambiental favorecendo contaminações, melhoramento genético enfocando produção e ignorando outras características.

Ordenha em péssimas condições higiênicasOrdenhador despreparado

Abordagem na anamnese e no exame geral

A anamnese deve sempre ser o mais completa possível, porém, no caso da glândula mamária, algumas questões devem ser particularmente levantadas. Do animal em exame, devem-se obter informações a respeito da atual lactação, tais como data do início (último parto), desempenho da produção, características e evolução de distúrbios secretórios. Devem também ser inquiridas as características de lactações anteriores. A presença de sinais sistêmicos, como anorexia e apatia, também deve ser indagada. As condições do animal durante o período seco devem ser cautelosamente investigadas. Não é raro que os animais sejam relativamente abandonados durante o período seco, condição que favorece a contaminação do úbere.

Por fim, aspectos gerais do rebanho e da propriedade devem ser questionados, tais como técnica de ordenha (manual ou mecânica), higiene e outros casos semelhantes. A presença de sinais sistêmicos deve ser avaliada. Assim, deve-se pesquisar o apetite, o estado geral, a coloração das mucosas (avermelhadas) e a temperatura (febre).

Exame especial

Em primeiro lugar, é importante salientar que a unidade da glândula mamária é cada quarto (bovino) ou metade (caprino/ovino), isto é, um processo patológico pode estar instalado numa unidade, estando a(s) outra(s) íntegra(s). O exame específico da glândula mamária é conduzido, basicamente, em três etapas: inspeção, palpação e exame do leite.

Inspeção: a inspeção deve se iniciar pela pele do úbere e tetos, verificando-se a ocorrência de lesões (úlceras, descamações, papilomas, fístulas) e de alterações na coloração (congestão, cianose). Em seguida, deve-se inspecionar o úbere como um todo, verificando-se alterações de tamanho (aumento/diminuição, generalizado/localizado) e de forma (inserção, profundidade, assimetrias, relaxamento de ligamentos). Na inspeção dos tetos, consideram-se a forma, a ocorrência de tetos supranumerários e sua extremidade. Essa extremidade deve guardar certa distância do chão, por exemplo, em bovinos da raça holandesa essa distância é de 40 a 45 cm.

Palpação: a palpação se inicia pelos tetos que podem ser palpados rolando-os entre os dedos. A cisterna da glândula pode ser palpada com a ponta dos dedos na região da base dos tetos. Quanto ao úbere, deve-se avaliar cada unidade individualmente, determinando-se sua consistência, temperatura e sensibilidade. Convém avaliar a eventual ocorrência de nódulos no parênquima glandular. Deve-se tracionar a pele do úbere para verificar a ocorrência de edema (normalmente a pele é relativamente solta e permite ser tracionada, fato que não ocorre no edema). Devem ser palpados, por fim, os linfonodos retromamários.

Inspeção da glândula mamáriaPalpação da glândula mamária

Exame do leite: o exame do leite inicia-se colhendo-se uma amostra de cada unidade num recipiente com o fundo escuro. O aspecto do leite é então avaliado quanto à coloração, presença de grumos, pús e sangue. Pode-se fazer, neste momento, uma análise do seu odor. O pH do leite pode ser também medido através de tiras ou aparelhos especiais para este fim. Normalmente, o leite possui um pH de 6,6 a 6,8 (colostro = 6,4). Em caso de mastite, este pH se torna alcalino pois as bactérias acidificam o leite e o organismo, para compensar, libera substâncias alcalinizantes.

Uma prova bastante usada no exame do leite é o "California Mastitis Test", ou CMT. Para tanto, colhem-se cerca de 2 mL de cada unidade da glândula em um bandeja própria e acrescentam-se mais 2 mL do reativo de CMT. Caso haja uma grande quantidade de células no leite, fato que pode indicar mastite, a mistura apresentará um aspecto gelatinoso. Caso contrário, o aspecto da mistura será semelhante à consistência do leite. A cor da mistura também pode indicar o pH. Amostras alcalinas tornam-se mais azuladas/arroxeadas.

Exame do leito em fundo escuroCalifornia Mastitis Test (CMT)

Deve-se colher, sob criteriosa antissepsia, uma amostra de leite em tubo estéril para ser realizado o exame bacteriológico e antibiograma.

Existe uma grande quantidade de outros exames do leite que podem ser usados na avaliação dos quadros de mastite, tais como a prova de Whiteside, a determinação de cloretos, a contagem de células somáticas (eletrônica ou pelo método de Prescott-Bred), a dosagem de lactose e a condutividade elétrica.

Abordagem propedêutica

Para que possamos entender os processos que mais afligem a glândula mamária, devemos partir do princípio de que a glândula mamária pode estar em 3 diferentes fases: fase peri-parto, fase de lactação e a fase seca. Em cada uma destas fases, a glândula mamária apresenta características distintas.

Na fase peri-parto (de 14 dias antes à 13 dias depois do parto) ocorre um extravasamento de líquidos que vêm a se depositar no subcutâneo, fazendo com que desapareçam as delimitações dos vasos externamente. Este extravasamento consiste o chamado "edema fisiológico" (conhecido popularmente como "mojo"), o qual pode ser mais evidente num animal do que em outro. É particularmente evidente em novilhas, algumas das quais costumam, inclusive, desencadear e reverter este quadro algumas vezes antes do parto. Quando este edema persiste por mais tempo e mantém os sinais do processo inflamatório intensos, passa a ser considerado como edema patológico. A glândula edemaciada (fisiologicamente ou patologicamente) aumenta a susceptibilidade à traumas causados principalmente por arame farpado, tocos e espinhos. Feridas perfurantes que atingem a cisterna podem levar a formação de fístulas lácteas. Quando o trauma ocorre na extremidade do teto, poderá advir a contratura/retração do orifïcio do teto, incontinência lactea ou até perda total do teto. A pele da glândula torna-se mais sensível a temperaturas extremas (muito frio ou muito calor) podendo surgir soluções de continuidade como fendas, rachaduras ou ragadias. Na fase peri-parto também podem ocorrer sangramentos discretos no começo da lactação em que podemos encontrar o leite rosado (hemolactia). As mamites ocorrem esporadicamente nesta fase.

A duração da fase de lactação pode variar, mas em bovinos deve ter em média 305 dias, atingindo o pico de lactação com 6 a 8 semanas. Nesta fase, a principal afecção é a mamite ou mastite. Existem, ainda, outras alterações da glândula mamária que, apesar de poderem ser detectadas em qualquer fase, na fase de lactação se tornam mais facilmente notadas em função da manipulação constante da glândula. São exemplos as alterações morfológicas (politelia, hipermastia, fístulas), traumatismos, abscessos, hematomas, papilomatose, cistos e úlcera da lactação.

Ordenhadeira limpa, mas membro do animal sujoSistema de ordenha em grande escala

A fase seca objetiva reestabelecer as reservas corpóreas e da glândula mamária. A interrupção da ordenha provoca um intumescimento do úbere com compressão dos capilares e involução da glândula. Um período seco menor que 30 dias compromete a lactação futura, mas um período de 100 dias pode levar à um aumento de 14,2% na futura lactação. O período normal é de 60 dias. Neste período observamos poucas afecções e dentre estas a principal é a mamite da vaca seca e a papilomatose. Esta última pode aparecer em qualquer fase, mas no período seco é mais negligenciada e é quando poderia ser mais facilmente tratada.

Tratamento da mastite com antibióticosPrevenção através do dipping

Doenças

Cistos lácteos
Os cistos lácteos são mais comuns em caprinos e decorrem da obstrução dos ductos galactóforos por causa ainda não esclarecida. Normalmente, não acarretam prejuízos para o animal e comumente acabam sendo reabsorvidos. O diagnóstico é feito pela punção e aspiração do conteúdo e é importante fazer o diagnóstico diferencial com mastite apostematosa.

Contratura / retração do orifício do teto
As contraturas e retrações do orifício do teto são de natureza congênita (p.ex.imperfuração do esfincter) ou adquirida (p.ex. por uma retração cicatricial na extremidade do teto ou especificamente do esfincter). Os animais afetados apresentam obstrução parcial dos tetos, com o leite saindo em gotas, em jatos extremamente finos. A ordenha difícil destes animais comumente é designada pelos ordenhadores como "teto duro" ou "ordenha dura". Em alguns casos pode haver obstrução total, não saindo leite. O processo favorece o acúmulo de leite nas cisternas e na glândula, fato que predispõe à instalação de uma mastite.

Os animais com estes problemas genéticos não devem ser mantidos em programas de seleção, pois não seria ideal transmitir esta característica mesmo com boa aptidão para produção de leite.

O tratamento é cirúrgico sendo usado um bisturi de teto apropriado com incisões repetidas para refazer uma abertura suficiente para a saída do leite. O prognóstico é reservado pois a cicatriz subsequente ao procedimento tenderá a retrair, nova cirurgia será indicada e assim sucessivamente. Também existe a possibilidade de destruição do orifício do teto.

Doenças vesiculares
As doenças vesiculares incluem principalmente a febre aftosa e a estomatite vesicular. Outras viroses que provocam lesões semelhantes na cavidade oral podem também ser citadas, como a febre catarral maligna, a doença das mucosas (diarréia vira; bovina), a doença da língua azul e a peste bovina. Os animais afetados perdem apetite, apresentam mastigação lenta e dolorosa e salivação profusa. Casos graves podem provocar o descolamento de toda mucosa da língua. Adicionalmente, devem ser procuradas lesões semelhantes no espaço interdigital e nos tetos. Fragmentos destas lesões podem ser colhidos e enviados para laboratório especializado para se confirmar o diagnóstico. O tratamento é local à base de antissépticos, tal como o permanganato de postássio. A febre aftosa é uma doença de notificação compulsória e na maioria dos estados brasileiros é obrigatória a vacinação, conforme calendário estipulado pelos órgãos de defesa sanitária animal.

Ectima contagioso
É uma doença específica de caprinos e ovinos, provocada por um poxvirus e provoca pequenas crostas na rima bucal e em volta das narinas. Mães amamentando animais com ectima podem apresentar a doença nos tetos. Trata-se de uma zoonose. O tratamento também é feito com antissépticos locais (permanganato de postássio, por exemplo) e a prevenção pode ser feita através da vacinação. Todavia, a vacinação só deve ser empregada em propriedades em que a doença já ocorra, pois se trata de vacina viva.

Edema patológico da glândula mamária
Consiste nos casos de excessiva intensidade do edema fisiológico da glândula mamária que ocorre na fase peri-parto. Tem baixa ocorrência, mas pode provocar ruptura dos ligamentos suspensórios do úbere. Muitas vezes está associado à animais com insuficiência cardíaca e ou renal. Caracteriza-se por aumento de volume com sinal de Godet positivo, calor, rubor, dor (processo inflamatório),aspecto luzidio, que podem variar em extensão, podendo em alguns animais ir da região umbelical ao períneo. Os membros posteriores encontram-se abduzidos (posição antiálgica observada quando a reação inflamatória exacerba). O tratamento do edema patológico pode ser feito com diuréticos (Lasix®, Naquasone®), anti-inflamatórios (Azium®, Banamine®, Naquasone®), restrição de ingestão de líquidos e massagens.

Hemolactia
Trata-se de sangramento discreto no começo da lactação em que podemos encontrar o leite rosado. Isto ocorre por rompimento de vasos de pequeno calibre ou por diapedese dos eritrócitos. Outras hemorragias podem ocorrer por deficiência de vitamina C (provoca fragilidade capilar) ou por hematomas intra-mamários (decorrentes de traumas ou fragilidade capilar),. Nestes quadros o leite costuma apresentar coágulos. Este quadro tem resolução espontânea, não sendo necessário tratamento.

Incontinência láctea
Nestes casos o leite que atinge a cisterna do teto sai constantemente pois o esfincter é não se fecha adequadamente, favorecendo contaminações ascendentes. O tratamento objetiva retrair o esfincter através de um processo inflamatório provocado pela aplicação de 0,1 mL de Lugol com uma seringa de tuberculina, no músculo do esfincter do teto em quatro locais envolta do orifício. Reações exacerbadas ao tratamento podem levar à contratura do orifício do teto. O prognóstico a longo prazo é de reservado a mal pois estas medidas são paliativas não reestabelecendo a normalidade funcional do esfincter.

Mamite ou mastite
A mamite ou mastite (são sinônimos) é a inflamação da glândula mamária causada por bactérias, normalmente dos gêneros Staphylococcus, Streptococcus ou Actinomyces. Existem três formas clínicas da mamite: catarral, apostematosa e flegmonosa.

A mamite catarral é um processo inflamatório superficial que geralmente acomete porções ventrais (cisternas, ductos e ácinos) estando a secreção láctea aparentemente normal, mas com algumas alterações como grumos (precipitados de proteína e resíduos inflamatórios). Os grumos podem estar presentes no começo, meio ou fim da ordenha. Quando os grumos só aparecem no início da ordenha, o processo localiza-se em porções mais distais da glândula mamária. Quando apresenta grumos em toda ordenha, o processo é mais difundido.

As mamites catarrais podem ser agudas ou crônicas. Nas mamites catarrais agudas, a glândula apresenta-se dolorida, quente, avermelhada, aumentada de volume e com sua produção de leite diminuída. O animal pode assumir posição antiálgica com os membros posteriores abduzidos. Podem surgir sinais sistêmicos como febre, congestão de mucosas, anorexia e apatia.

Na mamite catarral crônica, os sinais de inflamação são mais brandos, porém a produção de leite continua diminuída e a consistência do parênquima mamário torna-se firme, podendo ter nódulos à palpação profunda. Alguns casos crônicos podem apresentar sintomas muito discretos, restritos à diminuição na produção de leite, aumento da celularidade detectada pelo CMT e presença de bactérias no exame microbiológico do leite. Certos autores, porém, classificam inadequadamente essa condição como "mamite sub-clínica". Na realidade, a dita "mamite sub-clínica" nada mais é que uma forma branda da mamite catarral. Os processos crônicos podem, ainda, ser reagudizados e os processo agudos podem exibir áreas com focos crônicos. Um processo não é, assim, necessariamente subsequente a outro.

O prognóstico das mamites catarrais é bom se tratadas precocemente.

A mamite apostematosa é um processo inflamatório profundo, atingindo todas as estruturas (tubulares, secretoras e intersticiais), havendo abundante produção de pus e formação de abscessos. Pode evoluir de uma mamite catarral e conta com a participação de germes piogênicos (p.ex. Actinomyces pyogenes). A glândula mamária apresenta alterações à inspeção, a qual pode se apresentar, variando com o quadro, hipertrofiada, atrofiada e com pontos de supurações. À palpação nota-se endurecimento difuso ou circunscrito. O leite torna-se radicalmente alterado e transformado em pús. A coleção purulenta formada pode obstruir a passagem da secreção levando à agalaxia e, às vezes, à supuração pela pele do úbere. Quando ocorre contaminação por Micrococcus indolicus a secreção adquire odor nauseabundo característico. Podem ser encontrados, ainda, sintomas gerais decorrente de toxemia, como febre, inapetência. Metástases piogênicas podem ocorrer principalmente em fígado, coração, pulmão e articulações. O prognóstico quanto à vida é bom, todavia é muito difícil obter a cura local do processo que pode evoluir durante meses seguidos. Quando se obtém a cura local, a glândula nunca recupera a capacidade de produção leiteira.

A mamite flegmonosa é um processo inflamatório grave e difuso. Atinge todos os tecidos da glândula mamária (inclusive o intersticial). Quando causada pela Escherichia coli o quadro que se instala é desencadeado pela toxina da bactéria. O Staphylococcus spp e Clostridium spp determinam distúrbios circulatórios locais. A glândula mamária afetada apresenta sinais de processo inflamatório intenso com muita sensibilidade. O quadro pode evoluir para cianose, com esfriamento da região e gangrena (quadro comum em pequenos ruminantes). Ocorre diminuição brutal da produção e o leite perde suas características rapidamente (em aproximadamente 18 horas) adquirindo flocos e aspecto de soro lácteo ou soro sangüinolento. Existe comprometimento grave do estado geral com a toxemia provocando inapetência, distúrbios cardio-circulatórios, distúrbios respiratórios principalmente para compensar desequilíbrio hidro-eletrolítico e/ou acidose, distúrbio entérico, desidratação e hipertermia.

O prognóstico quanto à vida do animal é de reservado à mal.

O tratamento das mastites consiste basicamente na aplicação de antibióticos intramamários. A aplicação deve sempre deve ser feita após a última ordenha, com medicamento para o qual haja sensibilidade (antibiograma). Alguns autores indicam a aplicação de ocitocina antes de se medicar o animal com o objetivo de diminuir o leite residual e com isso diminuir a concentração de toxina, bactérias, resíduos inflamatórios, etc. É importante, ainda, a desinfecção do orifício do teto para não introduzir mais agentes e fazer massagem da cisterna para difundir o medicamento no leite, já que apesar de todas as tentativas para esvaziar o úbere, este nunca estará vazio e o leite servirá de veículo para o medicamento.

Em geral, usam-se de 250 a 500 mg de princípio ativo por aplicação intramamária. Os antibióticos mais usados são a cloxacilina (Anamastit®), a canamicina (Kanafran®), a gentamicina (Gentocin®) e as cefalosporinas (Vetimast®, Pathozone®). Devem ser evitados produtos que possuem anti-inflamatórios em sua composição, sobretudo esteróides. Esta associação provoca um alívio imediato nos sintomas mas, passado o efeito do anti-inflamatório, os sintomas voltam facilitando a cronificação do processo. Quadros mais graves, como nas mamites flegmonosas, a dose pode ser dobrada.

Mamites apostematosas podem ser tratadas com soluções antissépticas, tal como a associação da nitrofurazona (Furacin®) com líqüido de dakin (em partes iguais) ou o iodo PVP (Povidine®). A ablação química do parênquima é um tratamento drástico que pode ser empregado em quadros graves. Usa-se, para tanto, soluções de nitrato de prata 5% ou de iodo (Lugol).

O tratamento sistêmico com antibióticos deve ser usado apenas quando existe sinais gerais, como febre, anorexia, congestão de mucosas, etc. Nas mamites apostematosas, ainda, o tratamento sistêmico pode ser usado para evitar prováveis metástases. Quando houver a associação de tratamento sistêmico e local é importante que seja empregado o mesmo antibiótico. Outros medicamentos além dos antibióticos podem ser usados por via sistêmica, como antitérmicos, analgésicos e fluidoterapia.

Pequenas intervenções cirúrgicas podem ser empregadas no tratamento de mamites apostematosas, como a amputação do teto para facilitar a drenagem do material purulento, a abertura de abscessos com a aplicação de drenos ou sedenhos.

Em alguns casos, é necessário secar o animal. Para tanto, pode-se utilizar o seguinte método:

1 - Examinar a glândula para confirmar a ausência de mamite, animais com mamite devem ser tratados antes de começar o programa de secagem.

2 - Provocar secagem por alteração da dieta, suspender concentrados.

3 - Mudar o animal de ambiente para que não tenha contato com fatores que estimulem a produção/ejeção de leite (estábulo, barulho de ordenhadeira, bezerro, cheiro de silagem, etc.).

4 - Interromper a ordenha: o úbere ficará repleto de leite que será absorvido pelo organismo. Alguns técnicos optam por adaptar esta técnica à uma interrupção gradual e intermitente (técnica de "secagem intermitente") da ordenha mas esta técnica não apresenta vantagem comprovada sobre a "secagem abrupta".

5 - Observar o aparecimento de sinais de inflamação e se o animal manifestar mamite neste período, suspender a secagem, tratar e reiniciar a secagem.

6 - Após 2 semanas, a vaca estará seca e o animal deverá iniciar seu programa de alimentação normal.

Úlcera da lactação
Também chamada de filariose, estefanofilariose ou ferida-de-verão. Trata-se de uma enfermidade provocada por uma filária (Stephanofilaria sp) que provoca úlceras geralmente na parte ventral e anterior do úbere de vacas leiteiras. A doença provavelmente é disseminada por insetos. A presença da úlcera favorece a contaminação secundária que agrava o quadro e confere um odor desagradável, podendo predispor o animal à mamite pela proximidade da lesão contaminada do orifício do teto. O tratamento pode ser feito via sistêmica com ivermectinas (Ivomec®, Dectomax®, Cydectin®, Duotin®). Pode-se optar pela aplicação local com pomadas contendo de 5-10% de organofosforado (Neguvon®).

Bibliografia

BIRGEL, E.H. Avaliação das provas utilizadas no diagnóstico da mamite bovina. In: BIRGEL, E.H. & BENESI, F.J. Patologia Clínica Veterinária. São Paulo: Sociedade Paulista de Medicina Veterinária, 1982, p.177-213.

HEIDRICH, H.J. & HENK, W. Diseases of the Mamary Glands of Domestic Animals. Philadelphia: W.B. Saunders, 1967.

SCHALM, O.W.; CAROL, E.J.; JAIN, N.C. Bovine Mastitis. Philadelphia: Lea & Febiger, 1971.

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