Guia On Line de Clínica Buiátrica
Maurício Garcia, Alice M.M.P. Della Libera, Ivan R. Barros Filho

Afecções da pele e anexos

Introdução

De forma geral, as doenças guardam estreita relação com os agentes etiológicos que podem causá-las. No caso da pele, existe também uma dependência muito grande entre o tipo de agente etiológico e o país ou a região de criação animal. No Brasil, por exemplo, as enfermidades causadas por ectoparasitas assumem uma importância muito maior do que ocorre nos países de clima temperado. Tais diferenças são de natureza não só quantitativa, mas também qualitativa. Nos Estados Unidos, por exemplo, a infestação dos bovinos pela larva da Hypoderma bovis é extremamente importante, todavia tal parasita não ocorre no Brasil. Por outro lado, as ditas "bicheiras" (miíases), infestações por larvas da Cochliomyia hominivorax, são corriqueiras no Brasil, porém praticamente inexistentes nos EUA (sua ocorrência nos EUA é de notificação compulsória). Este fato deve ser observado quando da leitura de textos técnicos escritos por autores estrangeiros.

Exame especial

A técnica de exame da pelo e pelos é uma das mais simples de ser realizada, dependendo quase que exclusivamente da inspeção. É claro que outros métodos podem ser usados como a olfação e a palpação. Todavia, apesar desta aparente facilidade, a caracterização e a descrição das alterações encontradas é tarefa das mais difíceis, dada a subjetividade do exame. As lesões da pele são inúmeras e existem diversos critérios para sua classificação.

De maneira geral, um dos primeiros pontos a serem observados é se existem soluções de continuidade, ou ferimentos. Se houverem, deve-se descrever sua localização precisa, sua profundidade, seu aspecto e se existem miíases secundárias. Outro ponto importante é se existe queda de pelos, ou alopecia. Da mesma forma, deve-se descrever a localização e a extensão.

Ectoparasitas também devem ser notados, como carrapatos, bernes e môscas. Secreções, descamações, ulcerações, prurido, enfim, todas alterações encontradas devem ser meticulosamente examinadas e descritas. Dada a complexidade da descrição deste exame, muitos preferem usar um molde ou "croquis" de um animal, desenhando sobre ele as lesões encontradas.

Existe uma nomenclatura própria para a designação das lesões de pele. Elevações sólidas são chamadas de pápulas, nódulos ou tumores, na dependência crescente de seu tamanho. Da mesma forma, vesículas e bolhas são tumefações contendo soro ou linfa (as vesículas são menores que as bolhas). As pústulas são lesões semelhantes contendo pús. Existem, ainda, as crostas, escoriações e fissuras.

Em ovinos, o exame da lã pode indicar, ainda, a ocorrência de doenças anteriores, já que quando elas ocorrem há uma diminuição do diâmetro da lã. Essa diminuição determina um banda falha gravada na capa de lã.

Exames complementares

Raspado de pele: este método tem importância significativa nas tricofitoses e nas sarnas. O raspado deve ser superficial e periférico para as lesões onde suspeita-se de processo fúngico e profundo para as lesões onde a pesquisa de ácaros for a suspeita clínica principal.

Cultura e antibiograma: pode e deve ser realizado sempre que problemas infecciosos, bacterianos ou fúngicos, façam parte da lista de diagnósticos diferenciais. Devemos sempre tomar cuidado na interpretação dos resultados pois existe flora bacteriana normal na pele dos animais.

Pesquisa de dermatófilos: este exame consiste na pesquisa de dermatófilos a partir de material obtido da área afetada, submetidas a um processo de maceração com solução salina e coloração em lâmina com técnicas de coloração de rotina (p. ex. coloração de leishman ou gram). Pesquisa-se o aparecimento de estruturas gram-positivas semelhantes "trilhos de trem".

Biópsia: o material deve ser coletado de regiões significativas, isto é, deve-se dar total prioridade a lesões primárias, exceção feita quando predominarem lesões secundárias. Deve-se coletar material de diversos tipos de lesões que possam indicar tanto fases de evolução diferentes de um mesmo processo ou mesmo dermatopatias de etiologia diversa. Sempre procurar descartar dermatopatias que possam ser diagnosticadas pelos métodos acima citados ou pelo menos ter o resultado destes exames para que possam ser cruzados com as descrições das biópsias. O material deve ser submetido a um patologista com interesse em dermatologia veterinária e encaminhado com anamnese detalhada e descrição dos dados obtidos do exame físico.

Abordagem propedêutica

Conforme foi salientado, praticamente todo diagnóstico das enfermidades da pele dos ruminantes pode ser feito através da inspeção. Ela permite a detecção de ectoparasitas, como as miíases, os piolhos (pediculose), os carrapatos e a môsca-do-chifre.

Em outras enfermidades, não há a possibilidade de se visualizar macroscopicamente o agente, mas ocorre prurido, alopecia e crostas. O animal encontra-se irriquieto e muitas vezes várias partes da pele se encontram afetadas. É o caso da sarna e da fotossensibilização.

Algumas doenças provocam lesões cutâneas bastante características, como no carcinoma epidermóide, na papilomatose, na tricofitose e na dermatofilose. Todas se caracaterizam pelo aparecimento de lesões normalmente restritas a certas regiões, como cabeça e úbere, mas que eventualmente podem estar disseminadas por todo o corpo do animal.

Miíases
O termo miíase significa a infestação do couro dos animais por larvas de insetos. Compreende a popular "bicheira" (infestações por larvas da Cochliomyia hominivorax) e o conhecido "berne" (infestações por larvas da Dermatobia hominis). A miíase por C. hominivorax representa seguramente uma das principais enfermidades da pele dos animais domésticos. O quadro se instala em qualquer ferida ou solução de continuidade, tal como castrações, descornas, cortes acidentais, umbigos de neonatos, vulvas com restos placentários, etc. A fêmeas do inseto adulto pousam nestas feridas e depositam de 100 a 500 ovos que após apenas 24 horas eclodirão e liberarão larvas que passarão a se alimentar do tecido subcutâneo. A larvas da C. hominivorax alimentam-se apenas de tecidos vivos e jamais se instalam em cadáveres. As lesão causada por estas larvas atrairão mais fêmeas adultas que depositarão mais ovos, agravando progressivamente o quadro. Face à rapidez da evolução da doença, bastam apenas poucos dias de descuido para que um animal apresente-se severavemente afetado, muitas vezes de forma irreversível.

As larvas da C. hominivorax são pequenas (cerca de 5 mm) e em cada lesão encontram-se centenas delas. Esta é uma grande diferença da larva da D. hominis que é maior (cerca de 2 cm) e encontra-se apenas uma por lesão. Outra diferença da D. hominis é que ela permanece mais tempo no animal e seus ovos nunca são depositados diretamente pela fêmea adulta, e sim por outra mosca. A patogenicidade da D. hominis é, desta forma, menor do que aquela observada pela C. hominivorax.

O tratamento das miíases por C. hominivorax consiste nas seguintes etapas:

1 - tricotomia da região adjacente e lavagem com água e sabão

2 - neutralização das larvas com éter ou solução de cresol (Matabicheiras®, Gusanol®)

3 - remoção total das larvas

4 - aplicação de tintura de iodo e de solução repelente (Lepecid®, Bibesol®,Valléecid Spray®)

Em casos de cavidades muito profundas pode ser feita a colocação de um dreno de gaze embebido em tintura de iodo (conhecido como sedenho). Alternativamente, pode-se preencher a cavidade com uma mistura de açúcar com inseticida em pó (Tanidil®) e pomada de nitrofurazona (Furacin® pomada). Nos dias que se seguem, deve ser feita a limpeza da região evitando-se novas infestações. Existem diversas soluções antissépticas que se prestam para este fim, como a mistura em partes iguais de líquido de Dakin e solução de nitrofurazona (Furacin® líquido), a solução de iodo povidone (Povidine®) ou a infusão de barbatimão. Em casos muito severos pode ser feita antibioticoterapia sistêmica.

No caso da infestação por D. hominis a conduta é um pouco diferente. Tratam-se de larvas de difícil remoção manual e usualmente encontram-se várias delas sob o couro do animal. Deve-se optar, nestes casos, pela aplicação de inseticidas sistêmicos que podem ser injetáveis ou "pour-on". Existe uma grande variedade de produtos tais como as ivermectinas (Ivomec®, Duotin®, Dectomax®, Cydectin®), o triclorfon (Neguvon®) e o amitraz (Triatox®). O controle das moscas nas instalações é fundamental para a prevenção da doença.

Pediculose
Os piolhos são relativamente raros nos bovinos, mas muito comuns nos búfalos (Haematopinus tuberculatus) e nos pequenos ruminantes (Linognathus spp e Bovicola spp). É importante diferenciar os piolhos sugadores (anopluras), como o Haematopinus spp e Linognathus spp dos piolhos mastigadores (malófagas), como o Bovicola (Damalinia) spp. Os anopluras possuem a cabeça menor que o tórax e seu abdômem é arroxeado. Já as malófagas possuem a cabeça maior que o tórax e o abdômem acastanhado. A importância desta diferenciação está no fato dos anopluras serem mais patogênicos que as malófagas, podendo agravar consideravelmente as anemias causadas por vermes gastrointestinais. O tratamento consiste na aplicação periódica de inseticidas, como o triclorfon (Neguvon®), o amitraz (Triatox®), o diazinon (Diazinon®) e o cumafós (Asuntol®). Em ovinos, esta aplicação deve ser feita após a tosquia. Como os piolhos vivem apenas sobre o corpo dos animais, duas aplicações com intervalos de 15 dias costumam eliminar o problema, desde que todo o rebanho seja tratado. Neste caso, pode-se pensar na erradicação do problema, tomando-se especial cuidado na aquisição de novos animais e no controle dos fômites.

Carrapatos
A infestação pelo carrapato Boophilus microplus é muito frequente nos bovinos. Os animais muito infestados perdem peso e podem se tornar susceptíveis a outras doenças, algumas inclusive transmitidas pelo próprio carrapato, tal como a babesiose e a anaplasmose. Além disso, as lesões causadas pelos carrapatos provocam sérios danos ao couro do animal, prejudicando seu aproveitamento industrial. Os ovinos e caprinos podem excepcionalmente apresentar carrapatos, mas a carcacterização das espécies que acometem estes animais em nosso País ainda não está bem definida. O tratamento consiste na aplicação periódica de inseticidas. Muitos são os princípios ativos, tal como as ivermectinas (Ivomec®, Duotin®, Dectomax®, Cydectin®), o triclorfon (Neguvon®), o amitraz (Triatox®), o diazinon (Diazinon®) e o cumafós (Asuntol®). Existem inúmeras formas de aplicação destes inseticidas: injetáveis, aspersão, "pour-on", submersão, brincos ou a colocação de sacos com inseticida nos locais de passagem dos animais. Alguns laboratórios especializados já fazem um teste chamado biocarrapaticidograma. Trata-se de um teste para avaliar a sensibilidade do carrapato a diferentes princípios ativos, uma vez que se torna cada vez mais comum a resistência a muitos carrapaticidas.

Mosca-do-chifre
A Haematobia (Lyperosia) irritans, popularmente conhecida como môsca-do-chifre tornou-se um sério problema nas criações de bovinos do País. Até bem pouco tempo este inseto não existia no Brasil, mas seus enxames foram se espalhando pela América Central e entraram no País pelos estados do norte, sobretudo por Roraima. Atualmente já ocorre até nos estados do sul e sudeste. A principal característica destes agentes é que milhares de indivíduos de H. irritans pousam sobre um bovino que passa a ter inclusive dificuldade de se alimentar pelo incômodo que as intermináveis picadas destes insetos provocam. Os animais emagrecem rapidamente e sérios prejuízos podem ocorrer se não forem tomadas as medidas adequadas. A H. irritans pode, ainda, transmitir uma filária (Stephanofilaria stilesi) que provoca lesões ulcerativas na pele da face ventral do abdômem, principalmente na região anterior ao úbere. O tratamento consiste na aplicação periódica de inseticidas, como o triclorfon (Neguvon®), o amitraz (Triatox®), o diazinon (Diazinon®) e o cumafós (Asuntol®).

Sarna
Nos ovinos a incidência de sarna é de relativa importância, porém é rara nos bovinos e nos caprinos. Destaca-se a sarna psoróptica (Psoroptes spp), podendo também ocorrer, com menor freqüência, a corióptica (Chorioptes spp) e a sarcóptica (Sarcoptes scabeii). A sarna ovina costuma disseminar-se entre os rebanhos muitas vezes na época de tosquia através das equipes de tosquiadores ("comparsa") que percorrem diversas propriedades com seu equipamento infestado. Há queda na lã e prurido constante. O exame microscópico de um raspado profundo de pele pode ser útil para se comprovar o diagnóstico. Nos ovinos, porém, deve-se ter cautela ao se avaliar a queda de lã. A causa mais usual de queda de lã é alguma forma de "stress" a que o animal foi submetido, normalmente uma verminose intensa ou outra doença grave.Em nosso País, recentemente tivemos a detecção de alguns focos no Rio Grande do Sul de uma doença chamada "Scrapie" (similar a encefalopatia espongiforme do bovino, ou "doença-da-vaca-louca"). Esta enfermidade provoca, além de encefalite e outros sinais nervosos, intenso pruridro com queda de lã. O tratamento consiste na aplicação de acaricidas, como o triclorfon (Neguvon®), o amitraz (Triatox®), o diazinon (Diazinon®) e o cumafós (Asuntol®). Em ovinos, esta aplicação deve ser feita após a tosquia.

Fotossensibilização
Trata-se de uma enfermidade provocada pelo acúmulo de clorofila na pele associada a incidência de raios solares. A clorofila existe nas plantas que os animais ingerem e normalmente é metabolizada no fígado. Assim, lesões hepáticas podem prejudicar este metabolismo causando o quadro de fotossensibilização. A causa mais freqüente destas lesões hepáticas é a intoxicação pela esporodesmina, uma toxina produzida por um fungo (Pithomyces chartarum) que se desenvolve principalmente em pastagens de Brachiaria decumbens. Evidentemente, qualquer quadro de lesão hepática, tóxico ou não, pode provocar a fotossensibilização, todavia devido à grande utilização da B. decumbens como gramínea em nosso meio, a intoxicação por esporodesmina assume particular importância. Os animais afetados apresentam inicialmente eritema das partes afetadas, usualmente as partes brancas (esta localização é especialmente evidenciada em bovinos da raça holandesa preta e branca). Com a evolução do processo há a morte do tecido cutâneo que se torna ressecado e começa a se destacar. Miíases secundárias não são raras. Ovinos podem apresentar o quadro nas partes sem lã (cabeça e períneo). Por isso, a fotossensibilização nesta espécie é também chamada de eczema facial.


Bovino com fotossensibilização
 
Brachiaria decumbens

A primeira providência para se tratar um caso de fotossensibilização consiste em se proteger o animal da incidência direta de raios solares, mantendo-o em áreas bem sombreadas. Em seguida deve-se instituir o tratamento tópico das lesões com soluções ou pomadas antissépticas. Pode-se avaliar o grau de lesão hepática e a recuperação do animal através de dosagens séricas periódicas de enzimas hepáticas (AST, gamaGT, etc.). O uso de protetores hepáticos à base de agentes lipotrópicos, como a colina e o inositol tem sido indicado. Sua eficácia, porém, é duvidosa. Quanto à prevenção da doença, não se pode recomendar a eliminação de pastagens de B. decumbens, uma das principais gramíneas usadas no País. Tal medida além de pouco prática e anti-econômica pode-se revelar impossível, face à grande resistência e capacidade de disseminação desta gramínea. O que se deve tentar, entretanto, é o correto manejo da B. decumbens que, quando mantida baixa por pastoreio intensivo, dificilmente apresenta condições propícias para o desenvolvimento do P. chartarum.

Dermatofilose
A dermatofilose é provocada por uma bactéria, Dermatophilus congolensis. Não é, assim, uma micose. Provoca uma lesão bem característica com os pêlos se unindo em forma de pincel. A lesão se destaca com bastante facilidade. Em ovinos a doença provoca crostas um pouco diferentes, mas que também se destacam com facilidade. Pode-se fazer certa confusão com o ectima contagioso, mas este normalmente está restrito à rima labial, enquanto a dermatofilose ocorre em toda a face, inclusive nas orelhas. O exame microscópico destas lesões revela uma morfolgia típica e o isolamento bacteriológico confirma de maneira inconfudível a enfermidade. O tratamento consiste em uma única aplicação de elevadas doses de penicilina (70.000 UI/kg).

Papilomatose
A papilomatose é uma doença proliferativa causada por um vírus que causa lesões verrucosas que podem se localizar em várias partes do organismo, na dependência do sorotipo viral envolvido. Tais verrugas podem ser destacadas com certa facilidade, na dependência de seu tamanho. A resistência do organismo parece desempenhar um papel importante na ocorrência, na disseminação e na magnitude das lesões. Em caprinos, alguns casos de papilomatose podem sofrer transformação maligna e tornarem-se carcinomas epidermóides. Tais carcinomas são relativamente freqüentes nos bovinos, principalmente na terceira pálpebra. Quanto ao tratamento da papilomatose, pode-se proceder à remoção mecânica das verrugas, seguido-se uma aplicação de tintura de iodo no local, nos casos com poucas lesões. Deve-se prevenir a ocorrência de miíases secundárias, bem como de mastite, quando da instalação de papilomas no úbere e tetos. Nos casos em que existem muitos papilomas e que sua remoção seja muito difícil pode-se tentar a aplicação de uma autovacina feita com alguns papilomas retirados do memso animal e inativados pelo formol. Existem no mercado alguns produtos que possuem indicação para a terapia da papilomatose (Ganaseg®, Verrugado®, Figueirina®).

Tricofitose
A tricofitose, também chamada de dermatofitose ou dermatomicose, é uma doença provocada por um fungo, Trichophyton verrucosum, que acomete principalmente bovinos. A lesão causada pela tricofitose é bem característica: circular - em forma de moeda. Normalmente ocorre na face, mas pode aparecer no dorso ou em outras partes. Bezerros costumam ser mais atingidos. Usualmente ocorre em épocas mais úmidas e também depende do grau de resistência dos animais afetados. Pode regredir espontâneamente. O tratamento consiste na aplicação tópica de soluções à base de iodo. A terapia sistêmica à base de griseofulvina indicada por alguns autores deve ser evitda, pois além de cara é desnecessária.

Bibliografia

SCOTT, D.W.; SMITH, M.C.; Caprine Dermatology. Part I. Normal Skin and Bacterial and Fungal Disorders. The Compendium on Continuing Education. v.6, S190, 1984.

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