Guia On Line de Clínica Buiátrica
Maurício Garcia, Alice M.M.P. Della Libera, Ivan R. Barros Filho

Plano geral do exame clínico em ruminantes

Identificação

ESPÉCIE ANIMAL

Os ruminantes de interesse pecuário são mamíferos artiodáctilos (casco com dedos pares) pertencentes à família Bovidae. Os bovinos possuem como nome científico Bos taurus (origem européia) e Bos indicus (zebuíno - origem indiana). O nome científico do caprino é Capra hircus e do ovino é Ovis aries. Tratam-se, desta forma, de duas espécies distintas. Todavia, podem ocorrer casos raríssimos de nascimentos de cruzamento entre estas espécies. Os híbridos assim gerados, porém, jamais são férteis.

Apesar de haver uma grande diversidade morfológica entre as raças de caprinos e ovinos, podem haver situações de difícil diferenciação entre essas espécies ao olho menos experiente. A lã dos ovinos nem sempre está presente, já que existem raças deslanadas, como a Santa Inês e a Morada Nova. O dito "perfil acarneirado" da fronte convexa dos ovinos também pode ocorrer em certas raças caprinas, como na Anglo-Nubiana. Existem, todavia, três características morfológicas que permitem uma diferenciação inequívoca das duas espécies. Os ovinos possuem um depressão no bordo anterior do olho, chamada fossa infraorbital, que os caprinos não têm. Nos pés dos ovinos pode-se notar, afastando-se os dois cascos, um pequeno orifício, chamado canal biflexo, que os caprinos também não possuem. Finalmente, a cauda do caprino é pequena, cônica e apontada para cima, enquanto que a cauda do ovino é grande, cilíndrica e apontada para baixo. Mesmo em ovinos com cauda amputada, pode-se notar que seu direcionamento é para baixo.

RAÇA

As raças dos bovinos podem ser agrupadas basicamente em três grupos. As raças de origem européia (Bos taurus) são compostas por animais muitas vezes de alto peso, boa produção de leite e grande precocidade no ganho de peso. Todavia, são animais pouco adaptados a temperaturas mais altas e de pouca rusticidade. Em geral, são animais mais susceptíveis à doenças, sobretuto ectoparasitas, distúrbios digestivos e locomotores. A raça Holandesa (branca e preta, branca e vermelha) talvez seja a mais difundida em nosso País, mas também são exemplos a Jersey, a Parda Suíça, a Simental, a Piemontesa, a Chianina, a Charolesa, entre outras.

HolandêsJersey

GirGirolando

As raças de origem indiana (Bos indicus), também conhecidas por zebú, são animais de produtividade inferior às raças européias, mas devido a sua grande rusticidade e adaptabilidade às condições brasileiras, tornaram-se o principal grupo racial nacional. A presença de uma projeção no dorso destes animais ("cupim") é sua principal característica morfológica. A Nelore é a raça mais comum de zebú, mas também existem a Gir, a Guzerá, entre outras.

Finalmente, o terceiro grupo racial consiste nas raças mistas, decorrentes do cruzamento de raças européias com raças indianas. São exemplos a Canchim e a Pitangueiras. São animais de maior rusticidade que as raças européias e de maior produtividade que as raças indianas.

Dentre as raças caprinas, podem-se caracterizar, também, três grandes grupos. As raças caprinas leiteiras são compostas por animais de origem européia. São animais de peso elevado, atingindo de 70 a 90 kg nos machos e 45 a 60 nas fêmeas adultas. Os cabritos nascem com cerca de 3,5 kg. Medem de 80 a 90 cm nos machos e de 70 a 80 cm nas fêmeas. Os principais representantes destas raças são a Saanen (ou Branca), a Parda e a Toggenburg. Geralmente, esses animais são criados de maneira intensiva e estão, por isso, sujeitos a doenças infecciosas de contágio direto, como a micoplasmose e a artrite-encefalite caprina.

As raças mistas são compostas por caprinos de origem asiática ou africana, mas que sofreram um processo de melhoramento na Europa. A Anglo-Nubiana é um exemplo típico destes animais. A característica destas raças é o seu perfil acarneirado, dado pelo chanfro proeminente.

As raças nacionais consistem o terceiro grupo de raças caprinas e são animais de extrema rusticidade, porém de pequeno porte e de baixa produção leiteira. Apresentam altura de 60 a 65 cm e o peso oscilando ao redor dos 30 kg. As principais raças nacionais são a Canindé e a Moxotó. No Nordeste brasileiro esses animais são criados num ambiente conhecido como "caatinga raleada", onde as condições microclimáticas não são muito favoráveis ao ciclo de vida dos vermes. Todavia quando são criados em pastos de regiões menos áridas, essas raças, assim como as demais raças caprinas, passam a ser muito susceptíveis às infestações verminóticas.

Dentre os ovinos, devem ser salientados, também, três importantes grupos raciais. As raças de lã se caracterizam por animais de porte médio ou pequeno e tratam-se de animais relativamente rústicos. No Brasil, as principais raças de lã são a Merino, a Ideal, a Corriedale e a Romney-Marsh. Essas duas útltimas raças, todavia, são consideradas de aptidão mista. Esses animais, usualmente são criados em sistemas extensivos e mantidos em regime de pasto. Desta forma, são animais que comumente apresentam problemas relacionados com a verminose, com a podridão-dos-cascos e com a predação.

Já as raças ovinas de corte são compostas por animais maiores, porém menos rústicos. Salientam-se as raças de cara-preta (Suffolk e Hampshire) e as de cara-branca (Texel e Ile de France). Como é muito comum encontrar esses animais em criações intensivas e freqüentemente eles são arraçoados, pode-se esperar problemas de origem nutricional ou metabólica, como a urolitíase obstrutiva e a toxemia da prenhez.

Finalmente, o terceiro grupo racial é composto pelos animais ditos "deslanados". São animais selecionados no nordeste brasileiro e caracterizam-se por sua extrema rusticidade. Destacam-se, dentre os deslanados, as raças Santa Inês e Morada Nova.

IDADE

Nos bovinos, os animais jovens são chamados de bezerro e bezerra. Em fase intermediária, encontram-se os novilhos e as novilhas. O macho jovem não castrado é chamado de garrote. Animais adultos são chamados de touro e vaca. Boi é uma designação genérica que usualmente se refere a machos adultos castrados. Em certas regiões do País, estes animais podem receber uma designição especial (p.ex. terneiro = bezerro no Rio Grande do Sul, marruá = touro no Mato Grosso).

A avaliação da idade pelos dentes dos bovinos pode ser feita da seguinte maneira. Ao redor de 2 anos de idade o animal começa a trocar as pinças. Com 3 anos, inicia-se a troca dos primeiros médios e com 4 anos dos segundos médios. Com 5 anos os animais trocam os cantos. O nivelamento da mesa dentária e o afastamento dos dentes são os elementos usados na identificação da idade dos bovinos com mais de 5 anos.

Nos caprinos, a fêmea adulta é chamada de cabra e o macho adulto de bode. Nos ovinos, a fêmea adulta recebe o nome de ovelha e o macho adulto de carneiro, se não for castrado, ou capão, caso contrário. Esses animais atingem essa fase adulta, grosseiramente, com um ano de idade. Os animais com menos de um ano são chamados de cabrita e cabrito, para caprinos, e borrega e borrego, para ovinos. Cordeira e cordeiro são ovinos jovens que ainda estão mamando.

A idade dos pequenos ruminantes também pode ser avaliada pelo exame dos dentes. Não raramente, os animais nascem sem os incisivos mas, com uma semana, já começam a surgir os primeiros dentes decíduos (de leite). Com um mês de idade já nasceram todos os dentes decíduos. Com pouco mais de um ano de idade, os animais começam a trocar os dentes decíduos por dentes permanentes, iniciando-se pelas pinças. Os primeiros médios são trocados com dois anos e os segundos médios com três anos. Os cantos são trocados aos quatro anos de idade. É comum encontrar pessoas que se referem à idade dos animais em função de sua dentinção. Assim, uma "ovelha de dois dentes" é um animal que já trocou as pinças, ou seja, com um ano de idade. Um animal de "boca cheia" já trocou todos os dentes, ou seja, tem pelo menos quatro anos de idade. Com cinco anos de idade, já se inicia o nivelamento das pinças e aparece a chamada "cauda de andorinha" nos cantos. Com seis anos, as pinças já estão niveladas e, com sete, os primeiros médios se nivelam. Nessa idade, já se encontra a mesa dentária das pinças arredondada. Com oito anos, nivelam-se os segundo médios e a a mesa dentária dos primeiros se arredonda. Finalmente, com nove anos, ocorre o nivelamento dos cantos. Em termos produtivos, é muito difícil encontrar pequenos ruminantes com idade superior a dez anos.

SEXO

A identificação do sexo dos animais não representa nenhum problema, mesmo em animais recém-nascidos. Todavia, deve-se ter cautela ao se deparar com animais que apresentam um aspecto morfológico pouco comum de seus órgãos genitais. Esse fato é relativamente freqüente em caprinos mochos e trata-se de um caso de pseudo-hermafroditismo.

PROCEDÊNCIA

Pode ser bastante conveniente registrar a origem do animal, já que certas enfermidades são mais comuns em algumas regiões do que em outras. Por exemplo, as diversas plantas tóxicas que acometem os ruminantes não ocorrem em todo país da mesma maneira. Algumas podem ser encontradas em praticamente todo território nacional, como a Pteridium aquilinum (samambaia) e a Palicourea marcgravii (cafezinho). Outras estão restritas a determindas regiões, como a Sessea brasiliensis (canela de veado) e a Cetrum laevigatum (dama da noite), mais freqüentes em São Paulo e no sudeste de Minas Gerais.

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