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Guia On Line de Clínica Buiátrica Maurício Garcia, Alice M.M.P. Della Libera, Ivan R. Barros Filho |
| Afecções da região umbilical |
Introdução
A região umbilical dos neonatos sofre dramáticas alterações logo após o nascimento. Durante toda a vida fetal, o umbigo foi a porta de comunicação entre o feto e a mãe. Por ele chegava sangue arterial materno, rico em nutrientes e oxigênio. Através das veias umbilicais, o feto eliminava o CO2 e através do úraco ocorria a eliminação da urina. Entretanto, logo após o nascimento o umbigo perde totalmente sua função e involui rapidamente. Os vasos (veias e artérias) umbilicais se fecham juntamente com o úraco. A parede muscular também se fecha.
A maior parte das afecções desta região está relacionada com problemas neste processo de involução.
Semiologia
O exame voltado para a região umbilical deve considerar inicialmente o possível envolvimento piogênico de outros órgãos, como pulmão e articulações. A região do umbigo é examinada basicamente através de dois métodos: a inspeção e a palpação.
Através da inspeção deve-se observar formato, tamanho, coloração, lesões supurativas e a existência de miíases. A palpação revela a existência de eventual orifício e anel herniário, de sensibilidade, de aumento de temperatura e de consistência flutuante (abscesso).
A palpação indireta do trajeto fistuloso com sondas deve ser feita com cautela, pois há risco de perfuração abdominal e conseqüente disseminação de agentes infecciosos. O exame das estruturas intra-abdominais pode ser feito através da palpação abdominal nas regiões craniais e caudais ao umbigo. Em animais com muita tensão abdominal, pode-se aplicar 0,1 mg/kg de xilasina (Rompun®) para que haja um relaxamento da musculatura, facilitando-se a palpação.
A ultrassonografia e o exame radiográfico podem ser úteis no diagnóstico definitivo das enfermidades da região umbilical.
Abordagem propedêutica
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| Onfalite supurada | Hérnia umbilical |
A alteração mais comumente detectada nas diversas afecções da região umbilical dos ruminantes é a dilatação detectável pela inspeção. A palpação da região pode ajudar na determinação da natureza do processo. Nos casos de onfalite, o que se nota é o espessamento do cordão umbilical. Em bezerros sadios, a espessura deste cordão é menor que a de um dedo mínimo. Quando há a inflamação do umbigo, essa espessura pode tornar-se significativamente maior, além de estarem associados os sinais da inflamação (edema, sensibilidade, aumento de temperatura, etc.). Podem ser encontradas miíases associadas e drenagem de material purulento.
Nos casos de hérnia umbilical, pode-se reduzir a dilatação da região umbilical através da palpação, reintroduzindo o conteúdo herniário para a cavidade abdominal, quando pode-se perfeitamente sentir o anel herniário.
Pode ocorrer, mais raramente, a persistência do úraco. Nestes casos, nota-se a drenagem de urina pela região do umbigo.
Doenças
Hérnia umbilical
Esta alterção surge quando o processo involutivo da região umbilical apresenta uma falha no fechamento da musculatura abdominal. Alguns casos apresentam involução espontânea. Todavia, na maior parte das vezes só resta a opção cirúrgica para o tratamento. Trata-se de processo de base genética e sua ocorrência deve ser levada em conta na hora de se selecionar matrizes para o plantel.
Onfalite
Trata-se da inflamação do umbigo caracterizada por sinais da inflamação local, como edema, sensibilidade, aumento de temperatura, etc. O porcesso pode atingir, inclusive, as veias umbilicais (onfaloflebite) e as artérias (onfaloarterite). Na maior parte das vezes a onfalite é decorrente de descuidos na limpeza e desinfecção do umbigo do neonato e freqüentemente acham-se miíases associadas.
A onfalite pode ainda ser a porta de entrada de inúmeros microorganismos patogênicos. Assim, é relativamente comum encontrar em animais novos o espessamento das articulações dos membros, sobretudo dos anteriores, com aumento de temperatura e claudicação. Trata-se de um quadro de poliartrite purulenta de origem septicêmica. A punção articular revela material purulento típico, o que permite diferenciar das artrites infecciosas primárias (micoplasmose, artrite-encefalite caprina), quando se obtém um líquido seroso ou sero-sangüinolento.
Sinais sistêmicos, como febre, apatia e anorexia podem ainda estar presentes.
Os casos de onfalite devem ser tratados localmente, através da limpeza do local e aplicação de soluções antissépticas (tintura de iodo, líquido de dakin, etc.). Caso sejam detectados sinais sistêmicos (febre, apatia, anorexia, etc.) pode ser necessária a antibioticoterapia sistêmica e eventual tratamento suporte com hidratantes, glicose e vitaminas. Em certos casos, há a ocorrência de abscessos intraperitonias, quando faz-se necessária a intervenção cirúrgica. A prevenção da onfalite deve ser feita através da aplicação sistemática de tintura de iodo no umbigo logo após o nascimento, além do acompanhamento da involução, remoção de larvas de moscas e limpeza das instalações.
Persistência do úraco
Ocorre quando não há a involução do úraco, mantendo a comunicação da bexiga com o meio externo. A persistência do úraco caracteriza-se pela drenagem constante de urina pela região umbilical cujos pelos apresentam-se permanentemente úmidos. O exame radiográfico contrastado (urografia excretora) revela a típica alteração da silhueta da bexiga, em sua porção crânio-ventral, encontrada nestes casos. O exame de urina pode, ainda, revelar a ocorrência de cistite. Pode-se esperar sua involução espontânea nos casos discretos. Todavia, na maior parte das vezes só resta a opção cirúrgica para o tratamento. Deve-se lembrar da origem genética deste processo nos animais destinados à reprodução.
Tratamento
A base geral da terapia das afecções da região umbilical pode ser resumida no esquema abaixo:
1) Terapia conservativa
- terapia local (limpeza e desinfecção do local): onfalite aguda.
- terapia sistêmica (antibioticoterapia injetável): onfalite com febre, pneumonia ou envolvimento de outros órgãos.
2) Terapia cirúrgica sem laparotomia
- incisão e drenagem de abscessos: abscessos extra-abdominais, abscessos intra-abdominais aderidos à parede muscular.
- ressecção total de abscessos: abscessos com parede espessa (acima de 1 cm) e com menos de 10 cm de diâmetro.
- herniorrafia: hérnia umbilical.
3) Terapia cirúrgica com laparotomia
- ressecção de estruturas umbilicais intra-abdominais: uraquite e onfaloarterite sem envolvimento da bexiga, onfaloflebite sem envolvimento do fígado.
- ressecção de estruturas umbilicais intra-abdominais com ressecção do ápice da bexiga: uraquite e onfaloarterite com envolvimento da bexiga.
- drenagem com ressecção de estruturas umbilicais intra-abdominais: abscessos maiores de 10 cm de diâmetro com envolvimento de estruturas umbilicais intra-abdominais.
- marsupialização: onfaloflebite purulenta com envolvimento do fígado.
Bibliografia
LISCHER,C.J.; STEINER,A. Ultrasonography of the umbilicus in calves. Part 2: Ultrasonography, diagnosis and treatment of umbilical diseases. Schweizer Archiv für Tierheilkunde. v.136, n.6/7, p.227-241, 1994.