Guia On Line de Clínica Buiátrica
Maurício Garcia, Alice M.M.P. Della Libera, Ivan R. Barros Filho

Afecções do sistema urinário

Abordagem na anamnese e no exame geral

O exame do sistema urinário (SU) pode revelar lesões dos seus diferentes componentes (rins, ureteres, bexiga, uretra), mas também pode sinalizar o comprometimento de outras partes do organismo. Por exemplo, a hemoglobinúria é uma alteração da urina mas que pode ser decorrente, dentre outras, de quadros hemolíticos.

A ingestão de líquidos pelo animal deve ser inquerida para se avaliar o excesso de ingestão (polidipsia), a diminuição (oligodipsia) ou a ausência (adipsia). As características da micção também são levantadas. Consideram-se a sua freqüência aumentada (poliúria), diminuída (oligúria) ou ausente (anúria). A ausência de micção decorrente de retenção urinária (iscúria) difere da ausência de formação de urina (anúria). A micção pode ser, ainda, em pequena quantidade mas muito freqüente (polaquiúria) ou dificultosa (disúria). O esforço freqüente para urinar e defecar recebe o nome de tenesmo. Pode haver, por fim, a micção ininterrupta em gotas (incontinência urinária). O aspecto e a cor da urina também deve ser inquerido. Outros pontos gerais devem, ainda, ser considerados, sobretudo a presença de determinadas plantas tóxicas na propriedade, tal como a samambaia comum (Pteridium aquilinum), causadora da hematúria enzoótica.

O estado geral do animal deve ser avaliado. Na cavidade bucal e mesmo no animal como um todo deve ser pesquisada a ocorrência de odor amoniacal. Por sua proximidade anatômica com o SU, o sitema genital também deve ser rigorosamente examinadado.

Exame especial

Em bovinos e bubalinos, na dependência do tamanho do animal, os rins podem ser examinados por palpação retal, sobretudo o esquerdo. Devem-se avaliar aderências, tamanho, consistência, sensibilidade. A laparotomia exploradora ou a laparoscopia pode ser valiosa no exame dos rins. Os ureteres são de difícil exame e apenas profissionais experientes conseguem palpá-los por vial retal (principalmente a porção inicial do esquerdo) quando estão dilatados.

A bexiga pode ser examinada também por palpação retal, quando se avaliam tamanho, aderências, sensibilidade, consistência. A inspeção da bexiga pode ser feita através de um endoscópio inserido pela uretra (cistoscopia), após inflar-se a bexiga por bombeamento de ar. Observam-se a coloração, neoformações, secreções, etc. Finalmente, a uretra pode ser examinada, em machos, por palpação direta ou por inspeção de sua porção terminal exteriorizando-se o pênis.

A palpação indireta da uretra de machos com sondas, sobretudos nos casos de urolitíase, deve ser evitada, pois comumente provoca a ruptura uretral. Em fêmeas, pode-se inspecionar o meato urinário diretamente ou usando um pequeno afastador.

Exames complementares

Exame de urina: pode revelar diversos aspectos do SU, desde infecções, traumatismos até neoformações e características funcionais. Em fêmeas, a urina pode ser colhida com sondas uretrais, ou diretamente. Em machos, a sondagem é mais dificultosa, devendo-se aguardar a micção expontânea ou estimulá-la através de ligeira massagem no prepúcio.

Dosagem de uréia e creatinina sérica ou plasmática: permite avaliar a função renal.

Outros exames: incluem a biópsia renal, durante uma laparotomia ou endoscopia/laparoscopia abdominal, e as técnicas por imagem (radiografia e ultrassonografia).

Abordagem propedêutica

À excessão de poucas enfermidades, as doenças do sistema urinário não são muito freqüentes nos ruminantes. De qualquer maneira, o diagnóstico destas afecções depende da identificação de dois sintomas básicos: anormalidades no ato de urinar e alterações no aspecto da urina. Assim, é fundamental para o clínico observar o ato de micção para bem diagnosticar tais enfermidades.

Anormalidades no ato de urinar

Podem ser resumidas neste conjunto todas as afecções que provocam dor e desconforto durante a micção ou disúria. Os animais acometidos apresentam alterações posturais típicas. Os machos distendem e afastam os membros posteriores e apresentam contrações abdominais, freqüentemente com gemidos associados. A urina é eliminada em gotas e, às vezes, com sangue. Fêmeas assumem a postura típica de urinar, abaixando a parte posterior do corpo e arqueando o dorso, mantendo tal postura mesmo após o fim da micção.

A disúria está associada principalmente à doenças da uretra. Em ruminantes machos, especiamente bodes e carneiros, a causa mais comum de disúria é a obstrução do trato urinário por cálculos, ou urolitíase obstrutiva. Os cálculos urinários mais freqüentes se formam pela sedimentação do fósforo na bexiga. Urinas com alta concetrações de fósforo (hiperfosfatúria) predispõem, assim, para o aparecimento do cálculo. A hiperfosfatúria é causada por dietas ricas em grãos e pobres em fibras, dieta típica de fêmeas em final de gestação, de fêmeas em lactação, de animais em crescimento e de machos na estação de monta. Esta enfermidade é particularmente comum em pequenos ruminantes. Naturalmente podem ocorrer cálculos de outras naturezas, como os de sílica em bovinos. Todavia, os cálculos de fósforo são os mais freqüentes e mais importantes.

Em princípio, o processo de formação de cálculos, ou urolitíase, não consiste em si como doença. Os cálculos passam a ser problema apenas a partir do momento que obstruem o trato urinário, fato que só ocorre em machos, devido às características anatômicas de sua uretra (longa, estreita e sinuosa). Assim, a designação correta da doença é "urolitíase obstrutiva" e não simplesmente "urolitíase".

A característica obstrutiva do processo define, inclusive, todo quadro sintomatológico, que pode ser dividido em três fases básicas. A primeira é aquela em que há apenas a obstrução da uretra. O animal mostra sinais dor e assume um posicionamento típico, com as patas posteriores distendidas e freqüentes contrações abdominais. A urina pode gotejar pelo prepúcio, às vezes com sangue. Numa segunda fase, há a ruptura da uretra. Os sintomas anteriores permanecem, mas a região ventral do abdomem, ao longo do trajeto peniano, apresenta-se edemaciado e com infiltração de urina. Em certos casos, esse infiltrado atinge o saco escrotal. Finalmente, na terceira fase, há a ruptura da bexiga. Essa fase chama a atenção pelo fato do animal mostrar inicialmente sinais de melhora, pois há um alívio da pressão urinária que diminue a dor. Todavia, passadas poucas horas o animal vem a óbito.

A diferenciação sintomatológica nestas três fases é importante pois apenas na primeira delas há possibilidade de tratamento com sucesso. Entenda-se por sucesso como a recuperação do animal para suas funções reprodutivas. O sucesso quanto a sobrevida do animal é mais simples e existem várias opções cirúrgicas bem sucedidas, desde simples uretrostomia na região perineal até a amputação do pênis. Em cabritos e cordeiros destinados ao abate, tais alternativas são sempre interessantes. Todavia, raros são os casos em que se consegue recuperar o animal como reprodutor. Pode-se ter mais sucesso apenas nos casos em que a amputação do apêndice vermiforme consegue reverter o quadro obstrutivo.

A acidificação da urina através da administração de cloreto de amônia tem se revelado como uma forma bastante segura de prevenir o processo. Para tanto, deve-se acrescentar o produto na proporção de 20 gramas por quilo de ração de todos os machos. Além disso, apenas cabritos e cordeiros em crescimento e reprodutores durante a estação de monta devem receber ração. Para os demais, apenas um volumoso de boa qualidade. Mesmo assim, alguns casos podem ocorrer. Quando se deseja forçar o ganho de peso de animais de abate com dietas muito ricas em concentrados, existe a opção de se administrar diariamente, por via oral, 20 mL de uma solução de cloreto de amônia a 5% (50 g/L).

Isto é praticamente tudo que se pode fazer, até que se descubra uma forma segura de se tratar ou de se diagnosticar precocemente a doença. É curioso, mas apesar da urolitíase obstrutiva ser estudada no mundo inteiro há muitos anos, não há registros de avanços consistentes na prevenção e no tratamento desta doença. Talvez possam ser encontradas algumas alternativas se forem estudadas formas de tratamento à semelhança do que se faz na espécie humana. Com certeza tais tratamentos não seriam baratos, mas é possível que o valor dos animais acometidos justifique a sua adoção.

Alterações no aspecto da urina

A cor da urina dos ruminantes é normalmente amarelada e clara. Em certas enfermidades do sistema urinário ela pode se tornar escura, avermelhada ou acastanhada. Popularmente é chamada de urina cor de "coca-cola". Toda vez que o clínico se deparar com uma situação deste tipo ele deve fazer uma diferenciação básica se o quadro se trata de uma hematúria ou hemoglobinúria. A diferenciação pode ser feita macroscopicamente deixando a urina em repouso em um recipiente transparente. Caso após alguns minutos houver a deposição de um sedimento avermelhado, ficando o sobrenadante mais claro trata-se de hematúria. Caso não se forme o sedimento ou se forme em pequena quantidade, ficando o restante da urina com o mesmo aspecto inicial, trata-se de hemoglobinúria. Podem ocorrer, todavia, situações intermediárias em que a exata classificação da condição da urina só poderá ser feita através do seu exame laboratorial. Em alguns casos, pode-se fazer a dosagem de bilirrubinas, cujo aumento usualmente acompanha os casos de hemoglobinúria.

As lesões da bexiga e da uretra são a principal causa da hematúria. A urolitíase obstrutiva pode causar sangramento do trato urinário com conseqüente hematúria. Nos bovinos a hematúria enzoótica é a causa mais freqüente de hematúria.

Samambaia
Trata-se de uma enfermidade caracterizada por inflamação e neoplasia da bexiga induzida pela ingestão crônica da samambaia dos pastos (Pteridium aquilinum). Esta planta costuma ocorrer em solos ácidos e de baixa qualidade e normalmente não é ingerida pelos animais. Entretanto, na época seca do ano, com a falta de capim, os animais passam a ingerir a samambaia. Alguns animais, inclusive, parece que se acostumam à samambaia preferindo-a ao capim. A ingestão de grandes quantidades de samambaia de uma só vez provoca um quadro agudo caracterizado por hemorragias. A ingestão prolongada de pequenas quantidades, porém, induz o aparecimento de neoplasias (carcinomas, hemangiomas, fibrossarcomas) que se localizam preferencialmente no esôfago (popular "caraguatá", devido ao aspecto do tumor assemelhar-se a certo tipo de bromélia) e na mucosa da bexiga. Neste último caso, o tumor provoca um sangramento constante da bexiga que caracteriza a enfermidade conhecida como hematúria enzoótica dos bovinos. Face ao caráter maligno da neoplasia que se forma, não existe um tratamento eficaz para a doença. O tratamento suporte pode prolongar a vida do animal, já que usualmente apresentam-se fracos e debilitados. Existem tentativas de se estimular a resposta imune local com a aplicação de BCG, mas essa opção ainda carece de resultados consistentes. Assim, a atenção deve volar-se à prevenção da doença através da eliminação da samambaia das pastagens e da calagem do terreno para evitar o crescimento de novas plantas.

No caso da hemoglobinúria, a principal causa é a anemia hemolítica. A babesiose é uma causa comum de anemia hemolítica que provoca hemoglobinúria. A anaplasmose, todavia, não causa hemoglobinúria pois não ocorre hemólise intravascular como ocorre na babesiose. Neste caso, a destruição das hemácias parasitadas ocorre no baço através do sistema mononuclear-fagocitário.

Em bovinos a leptospirose causada por Leptospira interrogans, variedades hardjo e pomona, também causa anemia com hemólise intravascular com conseqüente icterícia. Nestes casos, também ocorrem danos renais que podem ser detectados por provas laboratoriais. A leptospirose pode provocar ainda quadros de abortamento.

Outras causas de anemia hemolítica são as intoxicações por cobre e pelo veneno crotálico.

Alterações no aspecto da urina podem, ainda, ocorrer nos casos de proteinúria acentuada e de piúria. Tais casos não são comuns nos ruminantes, mas podem decorrer de lesão primária do rim causada pelo Corynebacterium renale, o qual provoca uma enfermidade conhecida como pielonefrite contagiosa.

Lesões primárias do rim não são comuns nos ruminantes, mas podem ser causadas por algumas drogas, como a gentamicina e outros aminoglicosídeos. Elementos presentes em pesticidas e fungicidas, como o arsênico e o mercúrio, são também potencialmente nefrotóxicos.

Bibliografia

FETCHER, A. Renal disease in cattle. Part 1. Causative agentes. Compendium on Continuing Education. v.7, n.12, p.701-7, 1985.

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