| Zoonoses Maurício Garcia e Luciana Sutti Martins |
Brucelose
Introdução
A brucelose é uma doença infecto-contagiosa, de evolução crônica e de caráter granulomatoso típico, que acomete principalmente os sistemas reprodutivo e ósteo-articular de bovinos, suínos, ovinos, caprinos, cães, eqüinos e homem. Possui ampla distribuição mundial, sendo endêmica no Brasil.
A doença provoca graves perdas produção animal, chegando a causar 25% de diminuição na produção de leite e 15% na produção de carne, sem contar com a perda de bezerros ocasionada por abortamentos. Além disso, a sua presença torna o País vulnerável a barreiras sanitárias internacionais.
Etiologia
O agente é uma bactéria intracelular facultativa do gênero Brucella. São cocos-bacilos gram negativos, sem cápsula, imóveis e não esporulados. Esse gênero possui várias espécies, reunidas em dois grupos antigenicamente distintos:
Brucelas lisas ou clássicas:
Brucelas rugosas:
O agente pode resistir até 4 dias na urina de bovinos, 75 dias no feto abortado em período frio e 120 dias em locais úmidos, escuros e pH neutro. Entretanto, é sensível a desinfetantes comuns (álcool, produtos clorados, formol e compostos fenólicos), raios solares, fervura e pasteurização.
Epidemiologia
Fonte de infecção
Hospedeiros vertebrados que albergam as brucelas e as eliminam no ambiente: animais doentes ou portadores sãos. As diferentes espécies, apesar de ter predileção por determinada espécie, podem acometer diversas outras espécies. Os gatos porém, são resistentes à brucela.
Via de eliminação
Via de transmissão
contato direto: transmissão venérea (monta natural), pessoas que lidam diretamente com os animais (doença ocupacional).
contato indireto: ingestão de pastagens, alimentos e/ou água contaminados por restos de aborto, secreções vaginais que contenham brucela, IA.
Porta de entrada
Suceptível
Homem, bovinos, eqüinos, ovinos, caprinos, suínos e cães. Animais jovens são refratários à doença até atingirem a maturidade sexual, podendo ser portadores e vir a desenvolver brucelose posteriormente. As bezerras que se mantém afastadas das vacas, possuem uma freqüência de infecção mais baixa. Os novilhos e os machos castrados possuem pouca importância na epidemiologia da doença.
Patogenia
Uma vez atravessando a porta de entrada, as brucelas serão drenadas para os gânglios linfáticos regionais e a partir destes, via linfa ou sangue, disseminam-se por todo o organismo, indo colonizar os órgãos ou tecidos ricos em células do sistema mononuclear fagocitário, tais como gânglios linfáticos, medula óssea, fígado, baço e articulações. Além destes, as brucelas se disseminam para órgão reprodutivos como útero gravídico das fêmeas e os testículos, epidídimo e vesícula seminal dos machos.
A predileção para útero gravídico se deve à produção, pelo mesmo, do hormônio chamado eritritol. O eritritol atrai as brucelas e funciona como fator estimulante para o seu crescimento. Este hormônio só está presente em bovinos, caprinos, ovinos, suínos e cães, e está relacionado com a ocorrência do abortamento. Este hormônio não é produzido pela mulher ou pela égua que, por conseguinte, não apresentam abortamento em conseqüência da brucelose.
Sintomas
Diagnóstico
Exame clínico: deve ser considerado com cautela, pois os sintomas são inespecíficos sendo que o principal sintoma - a infertilidade - pode ter etiologia diversa. O abortamento costuma ocorrer após o 5° mês de gestação, sendo comum a retenção fetal por 24-72 horas após a morte. Ocorre com freqüência a retenção de placenta e endometrite. O feto abortado é aparentemente saudável pois não há infecção fetal. É importante, entretanto, estabelecer um diagnóstico diferencial de outras doenças que provocam abortamento, a saber:
Exame laboratorial: é essencial pra um diagnóstico definitivo.
Diagnóstico direto: o diagnóstico do agente, quando identificado, possui especificidade de 100%, mas a sensibilidade é muito baixa (resultado negativo não implica em indivíduos livres de infecção brucélica). É viável apenas para o diagnóstico individual de brucelose, já que sua complexidade e altos custos não compensam sua realização em rebanhos. O isolamento é feito a partir de feto abortado (conteúdo estomacal, mecônio, fragmentos de baço e pulmões), placenta, leite, líquido sinovial de articulações comprometidas e sêmen. O material deve ser colhido com o máximo de assepsia e enviado imediatamente, sob refrigeração, ao laboratório.
Diagnóstico indireto: a pesquisa de anticorpos anti-brucela é o principal recurso empregado no diagnóstico da doença. A técnica recomendada oficialmente pelo Ministério da Agricultura é a prova do antígeno acidificado tamponado (rosa-bengal, card test), que é muito sensível e de fácil execução. Entretanto, ela só pode ser realizada por veterinários que tenham se submetido a um curso de credenciamento reconhecido formalmente pelo Ministério. Até junho de 2002, porém, ainda será aceita a prova de soroaglutinação rápida em placa, técnica que vem sendo tradicionalmente empregada no País, mas que foi abolida pela nova legislação publicada em janeiro de 2001.
A prova do antígeno acidificado tamponado consiste em se homogeneizar, sobre uma placa de vidro, 0,03 mL de soro e 0,03 mL do antígeno (uma gota de cada). Após 4 minutos, movimenta-se suavemente a mistura e, com o auxílio de uma fonte de luz por baixo da placa, pesquisa-se a formação de pequenos grumos. A principal vantagem desta prova, com relação à tradicional soroaglutinação rápida em placa, está no fato dela diminuir a ocorrência de falsos positivos. Na técnica anterior, existia a possibilidade de ocorrerem falsos positivos em animais vacinados (título vacinal), uma vez que em animais vacinados há um nível maior de anticorpos da classe IgM, quando comparados com animais infectados (predomínio de IgG). O pH ácido do antígeno empregado nesta prova reduz a reatividade dos anticorpos IgM, mas preserva dos IgG.
O resultado da prova deve ser considerado como reagente ou não reagente, ou seja, foi abolida a condição de "suspeito".
Os animais que reagirem à prova do antígeno acidificado tamponado poderão ser submetidos a um teste confirmatório. Esse teste, porém, não poderá ser feito pelo veterinário de campo, mas sim em laboratório de referência credenciado pelo Ministério da Agriculrura. A técnica a ser empregada para esta confirmação é o teste do 2-mercaptoetanol. Para efeito de trânsito internacional e para diagnóstico de casos inconclusivos ao teste do 2-mercaptoetanol, deverá ser empregada a prova de fixação de complemento.
Para o monitoramento da condição sanitária de propriedades que já estejam livres da doença (certificadas), poderá ser feito um teste no leite dos animais, o chamado teste do anel em leite (ring test).
Tratamento
Em rebanhos comerciais o tratamento não deve ser realizado, sendo que por questões epidemiológicas é recomendado o sacrifício dos animais. Em animais de estimação, porém, o tratamento é baseado em antibioticoterapia (oxitetraciclina - 20 mg/kg, estreptomicina - 25 mg/kg, cloranfenicol - 10 mg/kg). Deve-se considerar, porém, que o agente é um parasita intracelular e o tratamento auxilia no alívio dos sintomas, mas é comum que ele não elimine totalmente o agente do organismo.
Controle
O controle da doença é objeto do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose (PNCEBT), lançado pelo Ministério da Agricultura em janeiro de 2001. O programa baseia-se nos seguintes pontos:
Vacinação obrigatória: passa a ser compulsória (a partir de dezembro de 2003) a vacinação de bezerras com idade entre 3 e 8 meses de idade. A vacina utilizada é feita com a amostra B19 (viva, atenuada). Atualmente existem 6 laboratórios produtores no Brasil e a produção atende apenas a 25% da real demanda. A vacinação contra brucelose só poderá ser realizada sob responsabilidade de médicos veterinários, que deverão estar cadastrados no Serviço Oficial de Defesa Sanitária Animal.
Certificação de propriedades livres
Certificação de propriedades monitoradas
Normas diversas
O que você precisa saber