| Zoonoses Maurício Garcia e Luciana Sutti Martins |
Encefalopatia Espongiforme Bovina
Introdução
Caracterização geral
Encefalopatia Espongiforme Bovina (Bovine Spongiform Encephalopaty – BSE) é uma doença infecciosa e degenerativa que afeta o sistema nervoso central de bovinos. Possui caráter progressivo e fatal. É também conhecida como "doença da vaca louca", apesar de afetar indistintamente machos e fêmeas.
Aspectos históricos
![]() | 1986 – A doença é identificada em bovinos.
1990 – Carne britânica é segura. Ministro da Agricultura aparece com sua filha na TV para comer hambúrguer e provar que não há perigo. |
| 1995 – primeira morte (Stephen Churchill, com 19 anos) por nova variante da Doença de Creutzfeldt-Jakob (vCJD). Governo britânico nega relação com BSE.
1996 – Governo britânico anuncia ligação entre BSE e vCJD. | ![]() |
Desde 1996 – cerca de 4,5 milhões de animais foram sacrificados para prevenir que a BSE se espalhasse. O governo britânico já gastou com indenizações cerca de 1,4 bilhões de libras e quase 600 milhões para descartar as carcaças. Estima-se que haja 1 milhão de bovinos infectados.
Situação atual
Etiologia
A doença é causada por uma proteína conhecida como príon. Os prions são agentes menores que os vírus e não possuem material genético (DNA ou RNA). A infecciosidade dos príons foi descrita em 1982 por Stanley Prusiner, da Universidade da Califórnia (EUA), trabalho que lhe valeu o prêmio Nobel em 1997.
Além da BSE, os príons causam encefalopatias espongiformes em outras espécies:
Os príons são extremamente resistentes, suportando temperaturas usuais de cozimento por horas, além de não serem inativados pela maioria dos produtos químicos, como hipoclorito de sódio. Solventes orgânicos, como o benzeno, inativam os príons.
Epidemiologia
As encefalopatias causadas por príons ainda são objeto de profundo estudo pela comunidade científica e muitas questões ainda estão pendentes. A origem da epidemia ainda não está provada, existindo diversas teorias. Todavia, com base nos conhecimentos atuais, pode-se descrever a seguinte história natural da doença:
Fonte de infecção: primariamente animais enfermos. Ainda se discute a possibilidade da existência de portadores sãos e o longo período de incubação dificulta sua identificação.
Via de eliminação: os príons não são eliminados. Eles permanecem nos tecidos infectados.
Via de transmissão: via digestiva, principalmente, através da ingestão de tecidos infectados.
Porta de entrada: trato digestivo.
Susceptível: animais sadios. Discute-se a possibilidade da existência de predisposição genética de certos animais.
Outras formas de transmissão (horizontal e vertical vêm sendo propostas. A Inglaterra baniu o uso de farinha de carne na alimentação de ruminantes em 1988, mas já existem casos de BSE em animais nascidos após esse ano.
Patogenia
O mecanismo de ação do príon se dá através de sua interação com uma proteína semelhante, chamada PrPc (príon "normal"), que existe normalmente nos tecidos nervosos e linfóides. Não há diferença na seqüência de aminoácidos do príon "normal" (PrPc) e do príon "infeccioso" (PrPsc). A diferença está na organização espacial destes aminoácidos. Esta nova estrutura permite que o PrPsc resista à ação de certas enzimas, como as proteases, e o PrPc não.
A figura acima mostra a diferença na configuração espacial entre o príon "normal" (PrPc) à esquerda e o príon "infeccioso" (PrPsc) à direita.
O PrPsc, após penetrar no organismo, forma um dímero com o PrPc e essa junção resulta em duas moléculas PrPsc. Essa multiplicação do PrPsc faz com ele passe a se acumular em vacúolos no tecido nervoso, causando sua degeneração. É do aspecto vacuolizado do tecido nervoso ao exame histopatológico que resulta o termo "espongiforme" (= semelhante a uma esponja).
Todo o processo, porém, é extremamente lento. O período de incubação pode levar até 10 anos, ou mais.
Sintomas
Em humanos
Em estágios iniciais, os sintomas da vCJD são semelhantes a outras doenças neurológicas como Mal de Alzheimer e depressão: ansiedade, lapsos de memória, perda de interesse na aparência e higiene pessoal, dificuldade em encontrar a palavra certa durante uma conversa. Após os estágios iniciais, o desenvolvimento da doença é rápido. Há perda de equilíbrio (síndrome cerebelar), alucinações repentinas durante o dia, muita sonolência, perda de coordenação de membros e cabeça. Progressivamente, os membros vão ficando endurecidos. Diminuiu muito a atenção ao ambiente externo e pode-se não mais reconhecer amigos ou familiares. No estágio terminal, o paciente fica acamado e com necessidade de cuidados constantes. As semanas finais são marcadas por um estado semelhante ao coma, a pessoa não consegue mais comer, beber ou engolir. O período de incubação é de no mínimo 5 anos. Morte normalmente em 18 meses a partir dos primeiros sintomas (pode durar 2 anos ou mais)
Em bovinos
A BSE acomete bovinos adultos, sem predisposição de sexo. Os sintomas se iniciam com pequenas alterações comportamentais, como apreensão, ansiedade e medo. Animais rotineiramente dóceis passam a se tornar irritadiços e reagem exageradamente a estímulos como toque e sons. Pode ocorrer leve hipertermia. Alguns animais desenvolvem o hábito de lamber constantemente o focinho e o flanco. Com a evolução da doença, o animal passa a apresentar sinais de lesão neurológica, como ataxia, hipermetria e tremores. Posteriormente, o animal desenvolve paresia de membros posteriores, causando dificuldade em se levantar. Ocorre perda de peso e diminuição da produção de leite. A evolução da doença é lenta (até 6 meses) e raramente causa a morte do animal pois, apesar de ser um quadro invariavelmente fatal, os animais são normalmente sacrificados antes.
Diagnóstico
Tratamento
Não há.
Controle
Veja também
http://www.agricultura.gov.br/sda/dda/bse01.htm
O que você precisa saber