Zoonoses
Maurício Garcia e Luciana Sutti Martins

Raiva

Introdução

  • Sinonímia: hidrofobia.
  • Conhecida desde 500 aC (Demócrito descreveu no cão e Celsus no homem).
  • Louis Pasteur, em 1885, impediu que a doença ocorresse em dois meninos mordidos por cães raivosos, ao aplicar neles uma vacina que obteve pouco tempo antes.
  • Em 1888: é criado o Instituto Pasteur, Paris. Em 1903: é criado o Instituto Pasteur, em São Paulo.
  • Em 1908, os brasileiros Antônio Carini (Diretor do Inst. Pasteur de SP) e Parreiras Horta descobrem que morcegos também transmitem a raiva. A teoria é considerada como "fantasia tropical" até que em 1914 cientistas alemães comprovam-na.
  • Atualmente, morrem no mundo de 20 a 50 mil pessoas por ano por causa da raiva.
  • Distribuição mundial (há poucos países livres...)
  • Há um avanço recente da doença no Estado de São Paulo (a vacinação em herbívores está sendo obrigatória).
  • Cidade de São Paulo: sem casos notificados desde 1983.

     Drácula e morcegos?

    Sabe-se que Bram Stoker, para criar seu personagem Drácula, inspirou-se no Conde Vlad, que viveu de 1431 a 1510 na Transilvania (Romênia), o qual dizem que possuía o hábito de comer pão mergulhado no sangue de suas vítimas. Entretanto, não se sabe como ele associou seu personagem ao morcego, já que em 1897 (quando seu livro foi publicado), não se sabia que os morcegos transmitiam a raiva. Aliás, não existem morcegos vampiros na Europa.

    Etiologia

  • RNA vírus, gênereo Lyssavirus (Lyssa = loucura, em grego), família Rhabdoviridae.
  • Acomete todos os mamíferos.
  • Vírus pouco resistente no ambiente.

    Cepas

    Característica

    Vírus de rua

    Vírus fixo

    Ocorrência

    Natural

    Laboratório

    Perírodo de incubação

    Variável, freqüentemente longo (meses)

    Curto (4 a 6 dias)

    Invasão de glândulas salivares

    Ocorre

    Não ocorre

    Patogenicidade ao homem

    100% (quase...)

    Ocasional, rara

    Epidemiologia

    Fonte de infecção: cães e morcegos (pp. Desmodus rotundus). Outros animais ocasionalmente, como gatos, animais silvestres...

    Via de eliminação: saliva.

    Via de transmissão: contágio direto - mordedura. Ocasionalmente lambedura em feridas, arranhaduras.

    Porta de entrada: pele.

    Susceptível: mamíferos (inclusive o homem).

    OBS.: Casos raros, execepcionais

  • Contágio via respiratória: 4 casos - cavernas e laboratório.
  • Portador são ou convalescente: caso de uma cadela na África. Transmissão homem-homem: transplante de córnea

    Patogenia

    Período de incubação: depende da quantidade de vírus inoculado e da proximidade do local da mordedura ao SNC:

  • Homem: 14 dias a 2 meses (pode chegar a 2 anos, ou mais...)
  • Cães e gatos: 10 dias a 2 meses
  • Bovinos: 25 dias a 5 meses

    Fase centrípeta: A inoculação do vírus é subcutânea ou intramuscular, através da mordedura. O vírus chega ao SNC pelos nervos periféricos (neurectomia experimental em animais de laboratório impediu a doença em animais inoculados). O vírus permanece certo tempo no local da mordedura (aonde se multiplica), antes de caminhar ao SNC (esta é a chance do tratamento...).

    Fase centrífuga: Depois de chegar ao SNC, ele se espalha ao restante do SN e às glândulas salivares. No SN ele causa inflamação inicial do tecido nervoso (fase de excitação) que evolui para morte celular (fase paralítica).

    Sintomas

    Em geral a doença dura de 2 a 6 dias e quase sempre termina em morte.

    Homem: inicia com angústia, dores de cabeça, febre ligeira, mal estar, perturbações sensoriais, principalmente próximas ao local da mordedura. Evolui para excitação, hiperestesia, extrema sensibilidade a luz e som, dilatação das pupilas e salivação. Aparecem, então, espasmos dos músculos da deglutição e a bebida é rechaçada violentamente por contrações musculares ("hidrofobia"). Podem aparecer espasmos respiratórios e convulsões. Antes da morte, alguns pacientes podem apresentar uma fase de paralisia generalizada.

    Cães e gatos: alteração de conduta, se escondem em locais escuros, mostram agitação não usual, ficam dando voltas. Animal reage ao menor estímulo. Anorexia, irritação no local da mordedura, febre ligeira. Depois de 1 a 3 dias se exaltam os sintomas de excitação e agitação. O animal se torna perigosamente agressivo, com tendência a morder objetos, animais e o homem, mesmo o próprio dono. É comum que morda a si mesmo. A salivação é abundante, já que o animal não consegue deglutir. Há alteração do latido por paralisia das cordas vocais. Os animais tendem a abandonar suas casas e a percorrer longas distâncias, atacando outros animais no percurso. Na fase terminal, observam-se convulsões, incoordenação muscular e paralisia. Alguns animais apresentam forma muda ou paralítica, a qual começa pela cabeça. O animal tem dificuldade de deglutir e o dono pensa que ele está "engasgado". Ao tentar socorrê-lo, abrindo e manipulando sua boca, o dono se infecta.

    Bovinos: predomina a forma paralítica, começando pelos membros posteriores. Apresentam paresia fláciada posterior, que evolui para paralisia. Os animais tem dificuldade para deglutir e deixam de se alimentar. Com a evolução, eles se deitam e não conseguem mais levantar, até a morte, que ocorre em 2 a 5 dias.

    Morcegos: os animais doentes alteram seu comportamento, passam a voar de dia e muitas vezes permitem ser capturados com facilidade (= risco de contágio !!)

    Diagnóstico

    Histórico: relatos de mordeduras por cães e morcegos.

    Exame físico: sintomas neurológicos diversos, morte em menos de 10 dias.

    Exames laboratoriais:

    Diagnóstico direto: pesquisa do agente

  • Imunofluorescência direta: encéfalo, decalque córnea, raspado de mucosa lingual.
  • Inoculação em ratos (intra-cerebral).
  • Exame histopatológico: Corpúsculos de Negri (Sellers, May-Grunwald, Mann)

    Diagnóstico indireto: pesquisa de anticorpos (sorologia)

  • Soroneutralização

    Tratamento

    Não existe tratamento para casos com manifestação clínica. As tentativas, entretanto, incluem soroterapia específica e vacinação.

    Controle

    Imunização: cães e gatos - aos 3 ou 4 meses, revacinação anual; herbívoros - aos 3 meses, reforço com 30 dias, revacinação anual, semestral ou estratégica (depende da ocorrência). Existem vacinas vivas e inativadas:

  • Vírus morto (inativado): vírus fixo em tecido nervoso (cérebro de rato) e cultivo celular.
  • Vírus vivo: embrião de galinha - Low Egg Passage (LEP), High Egg Passage (HEP), rim de suíno (cepa ERA)

    Vacinas disponíveis no mercado brasileiro

    Vacina

    Fabricante

    Tipo

    C

    G

    B

    Aftorab oleosa*

    Merial

    Inativada

       

    X

    Alurabiffa

    Merial

    Inativada

       

    X

    Bio Rhabdo Vet

    Bio Vet

    Viva (ERA)

    X

    X

    X

    Canigen CH (A2) PPi/LR*

    Virbac

    Inativada

    X

       

    Canigen R

    Virbac

    Inativada

    X

    X

    X

    Defensor

    Pfizer

    Inativada

    X

    X

    X

    Dog-Cell

    Hertape

    Inativada

    X

    X

     

    Era Vac

    Hoechst

    Inativada

       

    X

    Eurican CHPLR*

    Merial

    Inativada

    X

       

    Eurifel PHCR*

    Merial

    Inativada

     

    X

     

    Fel-O-Vax PCT-R*

    Fort Dodge

    Inativada

     

    X

     

    Nobivac Raiva

    Interchange

    Inativada

    X

    X

    X

    Ra Sad

    Lema

    Viva (SAD)

    X

    X

    X

    Rabdomun

    Coopers

    Viva (LEP)

    X

    X

    X

    Rabisin

    Merial

    Inativada

    X

    X

    X

    Rabivac

    Pfizer

    Inativada

    X

    X

    X

    Rai Liq

    Irfa

    Inativada

    X

    X

    X

    Rai Vac

    Fort Dodge

    Viva (SAD)

    X

    X

    X

    Rai Vac I

    Fort Dodge

    Inativada

    X

    X

     

    Raivacel

    Vallée

    Inativada

       

    X

    Rai-Vet Líquida

    Bio Vet

    Inativada

    X

    X

    X

    Rai-Vet Líquida

    Bio Vet

    Inativada

    X

    X

    X

    Tissuvax R

    Coopers

    Viva (SAD)

    X

     

    X

    Vacina Antirábica Era Vac Leivas Leite

    Leivas Leite

    Viva (ERA)

    X

     

    X

    Vacina Antirábica Leivac

    Leivas Leite

    Inativada

       

    X

    Vacina Antirábica Leivac Cães e Gatos

    Leivas Leite

    Inativada

    X

    X

     

    Vacina BGS-Cell

    Hertape

    Inativada

       

    X

    Vacina Inativada Contra a Raiva

    Vencofarma

    Inativada

    X

       
    * vacinas associadas, C = cães, G = gatos, B = bovinos

    Controle da fonte de infecção:

  • Controle da população de cães vadios: captura e sacrifício, campanhas de castração.
  • controle da população de morcegos: captura e aplicação de pasta anticoagulante, pastas vampiricidas nos animais.
  • Controle da população de animais silvestres, vacinação oral ???

    Como proceder em caso de acidente (animal mordeu humano):

  • Lavar a ferida com água e sabão e aplicar um antiséptico (álcool, iodo, etc).
  • Quando possível, manter o animal em observação.
  • Encaminhar o acidentado para atendimento médico (vacinação, soroterapia).

    O que você precisa saber:

  • Quem causa a raiva (classificação, características das cepas, resistência, etc)?
  • Qual o período de incubação e os sintomas da raiva?
  • Qual a patogenia da raiva?
  • Qual a epidemiologia da raiva?
  • Como é feito do diagnóstico da raiva?
  • Como deve ser feito o controle da raiva?
  • Como deve ser orientado um humano em caso de mordedura de cão ou morcego?